CORIOLANO
William Shakespeare

CORIOLANO

PERSONAGENS

CAIO MRCIO, depois Caio Mrcio Coriolano. TITO LRCIO, General contra
os volscos. COMNIO, General contra os volscos. MENNIO AGRIPA, amigo de
Coriolano. SICNIO VELUTO, Tribuno do povo. JNIO BRUTO, Tribuno do
povo, O jovem Mrcio, filho de Coriolano. Um arauto romano. Tulo
Aufdio, general dos volscos. Tenente de Aufdio. Conspiradores com
Aufdio. Nicanor, um romano. Um cidado de ntio. Adriano, um volsco.
Dois guardas volscos. VOLMNIA, me de Coriolano. VERGLIA, mulher de
Coriolano. VALRIA, amiga de Verglia. Damas, ao servio de Verglia.
Senadores romanos e volscos, patrcios, edis, lictores, soldados,
cidados, mensageiros, criados de Aufdio e outros servidores. 

ATO I 



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Cena I 

Entra um grupo de cidados amotinados, com bastes, varas e outras
armas.

PRIMEIRO CIDADO - Antes de irmos adiante, ouvi- me. TODOS - Falai!
Falai! PRIMEIRO CIDADO - Estais mesmo decididos a morrer, de
preferncia a passar fome? TODOS - Estamos! Estamos! PRIMEIRO CIDADO -
Inicialmente, sabeis que Caio Mrcio  o principal inimigo do povo.
TODOS - Sabemos! Sabemos! PRIMEIRO CIDADO - Matemo- lo, portanto, e
teremos trigo pelo preo que bem entendermos. Resolvido? TODOS - A esse
respeito, nem mais uma palavra. Passemos  ao. Vamos! Vamos! SEGUNDO
CIDADO - Uma palavra, bons cidados. PRIMEIRO CIDADO - Somos tidos na
conta de cidados pobres; s os patrcios  que so bons. O que deixa
fartos os dirigentes bastaria para aliviar- nos. Se nos cedessem apenas
as sobras deles, que ainda estivessem em boas condies, poderamos
imaginar que eles nos aliviavam humanamente. Mas acham que somos por
demais caros. A magreza que nos aflige, retrato de nossa misria,  como
que o inventrio minucioso da riqueza de todos eles. Para eles nosso
sofrimento  lucro. Vinguemo- nos, portanto, com nossos bastes, antes
de ficarmos reduzidos a ripas; pois os deuses sabem que o que me faz
dizer isso  a fome de po, no a sede de vingana. SEGUNDO CIDADO -
Quereis agir especialmente contra Caio Mrcio? PRIMEIRO CIDADO - Contra
ele em primeiro lugar;  um verdadeiro co para o povo. SEGUNDO CIDADO
- J pensastes nos servios que ele prestou ao pas? PRIMEIRO CIDADO -
Perfeitamente, e com muito gosto lhe faria por isso boas referncias;
mas ele se apaga com o prprio orgulho. SEGUNDO CIDADO - Ora! falai sem
maldade. PRIMEIRO CIDADO -  o que vos digo. O que ele fez de glorioso
foi apenas para esse fim. Muito embora as pessoas de conscincia
delicada possam dizer com suficincia que ele fez tudo isso pela ptria,
f- lo para agradar a me e por causa do seu prprio orgulho, que, sem
dvida, vai de par com seu merecimento. SEGUNDO CIDADO - Considerais
vcio nele o que  inerente  sua natureza. Pelo menos no podereis
dizer que ele seja cpido PRIMEIRO CIDADO - Se no posso diz- lo, nem
por isso fico sem acusaes contra ele. Tem defeitos de sobra, que
cansaria enumerar. (Gritos

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ao longe.) Que gritos sero esses? O outro lado da cidade j se
revoltou. E ns que fazemos aqui, a tagarelar? Ao Capitlio! TODOS -
Vamos! Vamos! PRIMEIRO CIDADO - Silncio! Quem vem a? ( 

Entra Mennio Agripa.) 

SEGUNDO CIDADO -  o digno Mennio Agripa. Sempre se mostrou amigo do
povo. PRIMEIRO CIDADO -  muito honesto. Quem nos dera que todos fossem
como ele. MENNIO - Que tendes, meus concidados, em mira? Para onde
ides com paus e cachaporras? Que se passa? Dizei- me, por obsquio.
PRIMEIRO CIDADO - Nossa causa no  desconhecida do senado; nestes
quinze dias eles j farejaram o que pretendemos fazer e que vamos
mostrar- lhes agora com os prprios fatos. Eles dizem que os suplicantes
pobres tm flego comprido; mas ho de ver que nossos braos tambm so
compridos. MENNIO - Mestres, caros amigos, bons vizinhos, quereis
arruinar- nos? PRIMEIRO CIDADO - Isso no ser possvel, senhor; j
estamos arruinados. MENNIO - Acreditai- me, amigos: os patrcios tm
por vs todos a mais caridosa solicitude. Com respeito a vossas
necessidades e o que estais sofrendo com essa carestia, tanto vale bater
no cu com todas essas armas, como jog- las no romano Estado, que
seguir seu curso, arrebentando dez mil freios mais fortes do que quanta
resistncia pudsseis antepor- lhe. No que respeita  carestia - os
deuses, no os patrcios, so seus causadores remdio lhe vir de vossos
joelhos, no dos braos. Oh cus! Fostes levados pela calamidade aonde
maiores, ainda, vos esperam. Caluniastes os pilotos do Estado, que de
todos vs cuidam como pais, sempre zelosos, enquanto os insultais como a
inimigos. PRIMEIRO CIDADO - Cuidam de ns? Muito certo, realmente!
Nunca se incomodaram conosco; deixam- nos morrer de fome, enquanto seus
celeiros esto abarrotados de trigo; promulgam editos sobre a usura,
para favorecerem os onzeneiros; revogam diariamente dispositivos
estabelecidos contra os ricos e promulgam todos os dias estatutos cada
vez mais vexatrios, para encadear e oprimir o povo. Se as guerras no
nos devorarem antes, eles o faro.  esse todo o amor que revelam a
nosso respeito. MENNIO - De duas uma: ou confessais que sois muito
maldosos, ou tolos por demais. Vou relatar- vos uma fabula muito
interessante. Decerto a conheceis; mas como serve muito bem a meus fins,
vou arriscar- me a cont- la de novo.

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PRIMEIRO CIDADO - Muito bem; vamos ouvi- la, senhor; mas no vades
imaginar que podereis chasquear de nossa misria com uma fabulazinha
qualquer. No tem importncia; quando quiserdes podereis principiar.
MENNIO - Contra o estmago os membros se insurgiram certo dia,
acusando- o de no meio do corpo colocar- se, preguioso sempre e
inativo, e, como sorvedouro, absorver, insacivel, a comida, sem nunca
contribuir com sua parte para o comum trabalho, enquanto os outros
rgos viam, andavam, refletiam, sentiam e falavam, contribuindo cada
um, assim, com sua parte, para proverem s comuns necessidades e
apetites do corpo. Respondeu- lhes o estmago... PRIMEIRO CIDADO - Ora
bem, senhor: qual foi a resposta do estmago? MENNIO - Vou dizer- vos,
senhor. Com uma espcie de sorriso, que no se originava dos pulmes, um
sorriso deste modo - pois, no final de contas, tanto posso dotar o
estmago de fala como fazer que ele sorria - com um sorriso desdenhoso
falou aos insurrectos, aos membros sediciosos que invejavam suas
atividades absorventes, tal como ora fazeis, s por maldade, com nossos
senadores, por no serem em tudo iguais a vs. PRIMEIRO CIDADO - Mas a
resposta do estmago? Que disse? Se a cabea de real coroa, os olhos
vigilantes, o conselheiro corao, os braos nossos soldados, os corcis
- as pernas - a lngua nosso trombeteiro e as outras aparelhagens e
menores peas de nossa construo, se todos, disse... MENNIO - E ento?
E ento? Mas como ele  eloqente! E ento, que aconteceu? PRIMEIRO
CIDADO - Se todos ficam lesados pelo estmago voraz, que  a sentina do
corpo... MENNiO - Bem, e agora? PRIMEIRO CIDADO - Se eles, os
principais, fizeram queixa, que poderia responder o estmago? MENNIO -
J vou dizer- vos. Se me concederdes um pouco do que quase nada tendes,
que  pacincia, direi sua resposta. PRIMEIRO CIDADO - Quantas voltas
fazeis para diz- la! MENNIO - Ateno, caro amigo! Nosso estmago,
sempre grave, mantevese tranqilo, sem revelar exaltao nenhuma, como
seus detratores. Deste modo lhes respondeu: " certo, meus amigos
incorporados", disse, "que eu recebo, antes de outro qualquer, todo o
alimento de que viveis, e  justo que assim seja, por ser eu o depsito
e celeiro de todo o corpo. Mas se estais lembrados, pelos canais de
vosso sangue tudo de novo mando  corte, ao corao,  alta sede do
crebro, e assim, pelos sinuosos passos da oficina humana, os nervos
mais potentes e as menores arterolas de mim recebem tudo de quanto
necessitam para a vida. E muito embora todos vs, a um tempo, meus bons
amigos..." isso disse o estmago, observai bem. PRIMEIRO CIDADO - Pois
no, senhor. Adiante!

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MENNIO - "E muito embora todos vs, a um tempo, no vejais o que eu dou
em separado para cada um, mui fcil  provar- vos por um clculo certo e
rigoroso, que recebeis de mim toda a farinha, sobrando- me de tudo s o
farelo." Que dizeis a isso? PRIMEIRO CIDADO - Foi resposta boa. E a sua
aplicao? MENNIO - Os senadores de Roma so esse bondoso estmago;
vs, os membros rebeldes. Seus conselhos examinai, suas canseiras todas,
e heis de reconhecer que os benefcios gerais que recebeis vm to-
somente da parte deles, nunca de vs mesmos. E vs a, que pensais
disto, sendo, como sois, o dedo do p do grupo? PRIMEIRO CIDADO - Eu,
o dedo do p? Por que o dedo? MENNIO - Porque sendo, como s, um dos
mais baixos, mais pobres e ordinrios desta muito sapiente rebelio,
vais sempre  frente. E se assim fazes,  porque farejas qualquer
vantagem prpria. Vamos! Ide preparar vossas clavas resistentes, vossos
bastes, que Roma est no ponto de bater- se com os ratos. Um dos lados
ter de ser malhado.

(Entra Caio Mrcio.) 

Nobre Mrcio, Salve! MRCIO - Muito obrigado. Que acontece, marotos
rezingueiros, que de tanto coar a pobre crosta da vaidade vos
transformais em sarna? PRIMEIRO CIDADO - S palavras boas  que nos
dais. MRCIO - Quem vos desse palavras boas vos adularia de produzir
engulhos. Que vos falta, ces ordinrios, se no vos agrada nem a paz
nem a guerra? Esta vos causa pavor; aquela vos aumenta a empfia. Quem
se fiasse de vs, na hora precisa, em vez de lees encontraria lebres;
em lugar de raposas, simples patos. No; mais seguros no vos mostrais
nunca do que um carvo ardente sobre o gelo, ou saraiva no sol. Vossa
virtude consiste em exaltar quem abatido se acha das prprias faltas,
para, logo, malsinar a justia. Quem se mostra merecedor de glria, de
vosso dio tambm se mostra. Tal como os desejos de certos doentes so
vossos impulsos, que visam sobretudo quanto possa aumentar- lhes a
doena. Quem depende de vossa graa nada com espadanas de chumbo e abate
robles com gravetos. Enforcai- vos! Confiar em vs? Mudais de idia a
cada instante; achais que  nobre quem vosso dio at h pouco merecia,
e infame o que era vosso emblema mximo. Que aconteceu? Por que motivo
em vrios quarteires da cidade gritais tanto contra o nobre senado que
sob a gide dos deuses vos mantm sempre com medo, que, do contrrio,
vos devorareis uns aos Outros? - Dizei: que  que eles querem? MENNIO
- Trigo por preo que eles estipulem, pois acham que h bastante na
cidade. MRCIO - Vo todos se enforcar! Acham? Ao fogo! Ficam sentados e
saber presumem quanto no Capitlio est passando: quem poder subir,
quem enriquece, quem declina; a faces diversas se unem, conjeturais
alianas

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pem por terra, reforam seus partidos e enfraquecem os que no desagrado
lhes caram, pondo- os abaixo dos sapatos rotos. Acham que h muito
trigo? Se a nobreza pusesse a compaixo de lado e a espada deixasse que
eu usasse, logo um monte faria de pedaos desses biltres, da altura
desta lana. MENNIO - No; estes esto j persuadidos, pois embora lhes
falte em grande escala qualquer discernimento, so covardes a mais no
poder ser. Mas, por obsquio, que diz o outro magote? MRCIO -
Dispersaram- se. Que se enforquem! Disseram- se esfomeados. Sopravam
certas mximas: que a fome rompe muralhas; ou que at cachorro precisa
de alimentos; que comida foi feita para as bocas, e que os deuses no
deram trigo apenas para os ricos. Com esses trapos  que fazem vento
para suas lamrias. Responderam- lhes, e tendo sido satisfeito numa das
exigncias - coisa perigosa, de arrebentar o prprio corao da
generosidade e deixar plido o poder mais altivo - logo os gorros a
jogar para cima comearam, como se pretendessem espet- los l nos
cornos da lua, arrefecendo de pronto a grande ardncia. MENNIO - E que
vitria a alcanaram? MRCIO - A de terem cinco tribunos, por escolha
livre deles, para defesa da sabedoria do populacho. Jnio Bruto  um
deles, e Sicnio Veluto, e... os outros. - Bolas! - Como posso saber?
Destelharia primeiro essa canalha Roma inteira, antes de obter de mim
uma tal coisa. O tempo os deixar mais fortes, sobre dar nascimento a
temas de mais peso, para novas revoltas. MENNIO -  curioso! MRCIO -
Ide embora, fragmentos! Para casa!

(Entra apressadamente um mensageiro.) 

MENSAGEIRO - Onde est Caio Mrcio? MRCIO - Aqui. Que  que houve?
MENSAGEIRO - Senhor, a novidade  que esses volscos esto em armas.
MRCIO - Muito isso me alegra; assim, teremos oportunidade de ventilar
um pouco as nossas sobras emboloradas. Vede, a vm vindo nossos graves
ancies.

(Entram Comnio, Tito Lrcio e outros senadores; Jnio Bruto e Sicnio
Veludo.)

PRIMEIRO SENADOR - Mrcio,  verdade quanto nos referistes no faz
muito: que se haviam os volscos levantado. MRCIO -  que eles tm um
chefe, Tulo Aufdio, que vos dar trabalho. Tenho inveja, confesso- o,
da nobreza que lhe  prpria. No fosse eu ser eu mesmo, desejara ser
ele, to- somente. COMNIO - J tivestes ocasio de com ele medir
foras. MRCIO - Se metade do mundo se encontrasse com a outra parte em
luta, e ele estivesse do meu lado, eu passara para o imigo, s para o
combater, s pelo orgulho de caar esse leo. 

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PRIMEIRO SENADOR - Ento, meu digno Mrcio, servi sob a ordem de
Comnio. COMNIO - Assim o prometestes. MRCIO - Sim, confirmo, senhor,
minha promessa; sou constante. Tito Lrcio, hs de ver- me novamente
atacar Tulo Aufdio. Como! Coxo? Vais ficar fora? TITO - No, meu Caio
Mrcio; antes firmar- me numa das muletas e combater com a outra, do que
ver- me excludo dessa pugna. MENNIO - Oh sangue nobre! PRIMEIRO
SENADOR - Ide conosco at ao Capitlio, onde os nossos melhores
companheiros, tenho certeza, esto  nossa espera. TITO (a Comnio) -
Ide na frente.

(A Mrcio.) 

Acompanhai Comnio; seguiremos atrs. A precedncia o mrito  que
indica. COMNIO - Nobre Mrcio! PRIMEIRO SENADOR (aos cidados) - A
vossa casas recolhei- vos. Vamos! MRCIO - No; que nos sigam todos. Tm
os volscos bastante trigo; levai esses ratos para roerem os celeiros
deles. Dignos amotinados, vosso brio j comea a dar frutos. Vinde!
Vinde!

(Saem os senadores, Comnio, Mrcio, Tito e Mennio; os cidados se
dispersam.)

SICNTO - H algum, como este Mrcio, to soberbo? BRUTO - No h
ningum como ele. SICNIO - Quando escolhidos fomos para o cargo de
tribunos do povo... BRUTO - No notastes os olhos dele e os lbios?
SICNIO - No; apenas seus sarcasmos. BRUTO - Achando- se irritado, no
teme criticar os prprios deuses. SICNIO - Nem fazer troa da modesta
lua. BRUTO - Que esta guerra o devore! Est ficando muito infindo de sua
valentia. SICNIO - Tal natureza, lisonjeada pelo grande xito, desdenha
a prpria sombra em que pisa de dia. S me admiro de que sua insolncia
se conforme em ficar sob o mando de Comnio. BRUTO - A fama a que ele
visa e que de graas j o cumulou bastante, nunca pode ser obtida to
bem como num posto subalterno ao primeiro, porque todos os reveses 
conta so lanados do general somente, muito embora este tivesse feito o
que cabia nos recursos humanos, e a censura leviana, ento, houvera
proclamado: "Oh! se Mrcio estivesse  frente disto!" SICNIO - Alm do
mais, correndo bem as coisas, a opinio, que de Mrcio tanto pende,
roubar de Comnio todo o mrito.

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BRUTO - Sim; metade das glrias de Comnio ser de Mrcio, muito embora
Mrcio no as tenha ganhado, e suas faltas redundaro, tambm, em glria
deste, conquanto no lhe caiba nenhum mrito. SICNIO - Vamos saber
agora as providncias determinadas e com que recursos, alm de seu
valor, ele se apresta para a presente guerra. BRUTO - Vamos logo. 

(Saem.) 

Cena II 

Corolos. O senado. Entram Tulo Aufdio e senadores. 

PRIMEIRO SENADOR - Assim, Aufdio, sois de parecer que os de Roma
conhecem nossos planos e a par esto de quanto ora intentamos. AUFDIO -
No  o vosso tambm? Qual  a idia que j foi agitada em nosso Estado
e em nosso Estado realizar- se pde sem que, antes, Roma a no deixasse
frustra? H quatro dias, s, ouvi sobre isso, estas mesmas palavras...
No, presumo que a carta est comigo. Aqui est ela. "Aliciaram
soldados; no se sabe, porm, se  para leste ou para oeste.  grande a
carestia; amotinado se acha o povo, e o boato est correndo por aqui
fora que Comnio, Mrcio, vosso velho inimigo - mais odiado da prpria
Roma do que de vs mesmo - e Tito Lrcio, esse viril romano, que os trs
dirigiro os contingentes para onde se destinam, sendo quase certo que 
contra vs. Pensai no caso." PRIMEIRO SENADOR - J temos nossas foras
na campanha. No duvidamos nunca de que prontos para a guerra os romanos
estivessem. AUFDIO - Nem se vos figurou nunca tolice guardar sigilo
sobre o plano ousado, at que por si mesmo se mostrasse. Mas pelo jeito,
Roma soube disso ainda na chocadeira. Semelhante particularidade nos
encurta demais o plano de tomar de assalto muitas cidades antes de ter
Roma notcia de que estvamos em campo. SEGUNDO SENADOR - Assumi vosso
posto, nobre Aufdio, tomando logo a direo das tropas. De guarda
ficaremos em Corolos. Se eles vierem cercarnos, trazei logo para aqui
vossos homens. Mas eu penso que seus preparativos no vos visam. AUFDIO
- Oh! no o duvideis; falo com provas. Mais, ainda: uma parte de seus
homens j est em marcha, e para nossas bandas. Deixo Vossas Nobrezas.
Se eu e Caio Mrcio nos encontrarmos, j fizemos o juramento de lutar
sem pausa, at que um de ns dois fique por terra. TODOS - Que os deuses
vos assistam. AUFDIO - E conservem Vossas Honras em paz. PRIMEIRO
SENADOR - Adeus. SEGUNDO SENADOR - Adeus.

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TODOS - Adeus. 

(Saem.) 

Cena III 

Roma. Um quarto em casa de Mrcio. Entram Volmnia e Verglia; sentamse
em dois tambores e comeam a costurar. 

VOLMNIA - Cantai alguma coisa, filha, por obsquio, ou exprimi- vos por
qualquer Outro modo prazenteiro. Se meu filho fosse meu marido, eu me
mostraria mais alegre com essa ausncia, em que ele ganha honra, do que
com os abraos do leito nupcial com que ele me testemunhasse mais amor.
Quando ele ainda era grcil de corpo e o nico filho de minhas
entranhas; quando sua adolescncia, com a graa muito prpria, atraa
todos os olhares; quando qualquer outra me, ainda que instada durante
um dia todo por um rei, no se teria privado de uma hora da satisfao
de contempl- lo: eu, considerando que o mais adequado adorno de sua
beleza seria a glria e que ele valeria tanto como um quadro pendurado
na parede, se aquela no o animasse, aprazia- me em mand- lo procurar
perigo onde pudesse encontrar a fama. Mandei- o para uma guerra cruel,
de onde ele retornou com a fronte coroada de louros. Digo- te, filha,
que no foi menor a minha alegria ao ouvir que havia dado  luz a um
varo, do que ao saber pela primeira vez que ele se afirmara como homem.
VERGLIA - Mas se ele tivesse morrido nesse negcio, senhora: que
aconteceria depois? VOLMNIA - Depois, o meu filho ficaria sendo seu
belo nome, que me teria dado posteridade. Permite que te confesse com
sinceridade: se eu tivesse uma dzia de filhos, todos iguais em meu
amor, e nenhum menos caro do que o teu e o meu bom Mrcio, preferira ver
onze morrer nobremente por sua ptria a que um somente se fartasse numa
inao cheia de volpia. 

(Entra uma dama.) 

DAMA - A senhora Valria veio ver- vos. VERGLIA - Dai- me licena para
retirar- me. VOLMNIA - No; de jeito nenhum. S me parece que ouo o
tambor, daqui, de vosso esposo; vejo- o a puxar pelo cabelo Aufdio,
fugindo dele os volscos como as crianas fogem dos ursos; vejo- o como
bate com o p no cho, assim, e como grita: "Poltres, segui- me!
Concebidos fostes no medo, embora em Roma ao mundo visseis!" A fronte
ensangentada, ento, limpando com a mo de malha, segue para diante,
tal como o ceifador que recebera por tarefa segar toda a lavoura, se
receber quiser o estipulado. VERGLIA - A fronte ensangentada! Oh no!
Por Jpiter! Sangue, no! VOLMNIA - Oh! calai- vos, minha tola. Sangue
 adorno mais belo, para os homens, do que trofu dourado. O seio de
Hcuba amamentando Heitor, mais agradvel aparncia no tinha do que a
fronte do prprio Heitor,

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quando estilava sangue nos prlios contra os gregos. - A Valria dize
que ela  bem- vinda a nossa casa. 

(Sai a dama.) 

VERGLIA - Que os cus amparem meu marido contra o terrvel Aufdio!
VOLMNIA - Ele h de a fronte fazer vergar de Aufdio at aos joelhos, e
o pescoo pisar- lhe.

(Volta a dama com Valria e um porteiro.) 

VALRTA - Minhas senhoras, bom dia para ambas. VOLMNIA - Querida
senhora! VERGLIA - Alegro- me por Vossa Graa. VALRIA - Como estais
passando? Ambas sois notoriamente caseiras. Que estveis cosendo? Belo
modelo, em verdade. Como est vosso filhinho? VERGLIA - Fico muito
agradecida a Vossa Graa: est passando bem, minha boa senhora. VOLMNIA
- Ele prefere ver espadas e ouvir tambor, a olhar para o mestreescola.

VALRIA - Dou minha palavra em como  igualzinho ao pai. Iria jurar que
 uma criana linda. Por minha f, na quarta- feira eu o contemplei
durante meia hora: tem uma fisionomia decidida. Vi- o correr emps de
uma borboleta dourada; depois de a ter pegado, soltou- a de novo;
depois, tornou a persegui- la por vrias vezes, sempre a correr atrs
dela, at tornar a apanh- la. Por ltimo, ou por ter ficado exasperado
por ter cado, ou por outra razo qualquer, rangeu os dentes assim e a
despedaou. Oh! devereis ter visto como a deixou em pedacinhos!
VOLMNIA - Revela os mesmos caprichos do pai. VALRIA - Realmente;  uma
nobre criana. VERGLIA -  muito esperto, minha senhora. VALRTA -
Vamos, ponde de lado essa costura; passareis comigo a tarde de hoje como
donas de casa desocupadas. VERGLIA - No, minha boa senhora; hoje no
porei os ps fora da porta. VALRIA - No poreis os ps fora da porta?
VOLMNIA - Sim, sim; ela o far. VERGLIA - No, no, se mo permitirdes.
No transporei o umbral da casa enquanto meu senhor no voltar da
guerra. VOLMNIA - Ora! Encarcerais- vos por maneira absurda. Vamos;
precisais ir visitar a boa senhora que teve criana. VERGLIA - Almejo-
lhe pronto restabelecimento e a visitarei com minhas oraes, mas no
poderei ir  sua casa. VOLMNIA - E por qu, pergunto- vos? VERGLIA -
No ser para furtar- me a esse trabalho, nem por falta de amizade.
VALRIA - Devereis ser uma segunda Penlope. No entanto h quem diga
que toda a l que ela fiou na ausncia de Ulisses s serviu para encher
taca

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de traas. Vinde; desejara que vossa cambraia fosse to sensvel quanto
vossos dedos, para que, por compaixo, deixasses de espet- la. Vamos;
tereis de sair conosco. VERGLIA - No, minha boa senhora; desculpai-
me, mas no sairei de casa. VALRIA - Por minha f, vinde comigo, que
vos darei excelentes notcias de vosso esposo. VERGLIA - Oh! minha boa
senhora; no pode ter chegado ainda nenhuma notcia. VALRIA -  certo;
no estou brincando: chegaram notcias ontem  tarde. VERGLIA - 
verdade, senhora? VALRIA - Falando com toda a seriedade:  certo. Ouvi-
as da boca de um senador. Passou- se deste modo: os volscos tm em campo
um exrcito, contra o qual partiu Comnio, na qualidade de general, com
parte de nossas foras romanas. Vosso marido e Tito Lrcio puseram cerco
 cidade de Corolos. Eles no tm a menor dvida com respeito  vitria
e ao trmino da campanha. Eis a verdade, por minha honra. Assim, vos
peo, vinde conosco. VERGLIA - Perdoai- me, minha boa senhora; porm
mais tarde vos serei obediente em tudo o mais. VOLMNIA - Deixemo- la
sozinha, minha senhora; no estado em que est, s poder estragar- nos a
alegria. VALRIA - Realmente,  tambm o que penso. Passai bem, ento.
Vamos, boa e querida senhora. Por obsquio. Verglia, pe tua solenidade
porta fora e vem passear conosco. VERGLIA - No, decididamente, minha
senhora. VALRIA - Est bem. Ento, adeus.

(Saem.) 

Cena IV 

Diante de Corolos. Entram com tambores e estandartes Mrcio, Tito
Lrcio, oficiais e soldados. Depois, aproxima- se um mensageiro. 

MRCIO - Ali vem novidade. Apostar quero em como houve combate. LRCIO -
Meu cavalo contra o vosso: no houve. MRCIO - Aceito. LRCIO - Aceito.
MRCIO - Dize: encontrou o general os volscos? MENSAGEIRO - Esto 
vista, mas no se falaram. LRCIO - O bom cavalo  meu. MRCIO - Compro-
o de volta. LRCIO - No o vendo nem o dou, mas vo- lo empresto por
cinqenta anos. Intimai Corolos para parlamentar. MRCIO - A que
distncia os dois corpos esto?

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MENSAGEIRO - H milha e meia. MRCIO - Ento  certo ouvirmos seus
rebates e eles os nossos. Marte, ouve meu voto! D que possamos terminar
logo isto, para, de espadas fumegantes, irmos auxiliar os amigos na
campanha. Corneteiro, o sinal!

(Toque para parlamentar. Sobre os muros aparecem dois senadores e vrios
cidados.)

Dentro dos muros se encontra Tulo Aufdio? PRIMEIRO SENADOR - No; no
temos na cidade ningum que vos receie menos que ele, o que  menos do
que nada.

(Toque de tambor.) 

Ouvi! Nossos tambores os mancebos levam para o combate. Antes, decerto,
derruirmos nossos muros, que ficarmos encurralados neles. Nossas portas,
que julgais bem trancadas, esto presas apenas por canios: por si
mesmas ho de se escancarar. Ouvi ao longe!

(Rebate longnquo.) 

 Tulo Aufdio. Ouvi de longe o estrago que ele faz, como fenda, em
vosso exrcito. MRCIO - Ento j se atracaram. LRCIO - Que esse
estrondo nos sirva de lio. Escadas, eh! 

(Os volscos passam para o palco.) 

MRCIO - No nos temem, pois saem da cidade. Em frente ao corao ponde
os escudos e combatei com coraes mais duros do que os prprios
escudos. Bravo Tito, para a frente. O desdm que eles demonstram
ultrapassa de muito o que pensvamos. Suo de indignao. Meus
companheiros, avanai! Tomarei por um dos volscos quem eu vir a recuar,
e hei de mostrar- lhe se meu ao  cortante.

(Alarma. Os romanos so repelidos at suas prprias trincheiras. Volta
Mrcio.)

MRCIO - Que os flagelos do sul sobre vs caiam! Sois o oprbrio de
Roma, sois rebanho... Que as lceras e as chagas vos emplastrem, para
que vos torneis aborrecidos antes mesmo de terdes sido vistos, e cada um
a infeco transmita aos outros, contra o vento, a uma milha de
distncia. Almas de pato com feitio de homens! Fugis de escravos. At
mesmo os monos os teriam batido. Pluto e inferno! Todos feridos por
detrs! As costas rubras e as faces plidas de medo febril, todos fugis!
Voltai  carga, pelos fogos do cu! Caso contrrio, deixarei o inimigo e
farei guerra contra vs todos. Tende mais coragem! Vinde! Se
persistirmos, a eles todos para as prprias esposas tocaremos, como
conosco esto fazendo agora para nossas trincheiras.

(Novo rebate. Tornam a entrar os volscos e os romanos, sendo renovada a
pugna. Os volscos se retiram para Corolos, perseguindo- os Mrcio at
s portas da cidade.)

Vede, as portas esto escancaradas; secundai- me. A sorte se abre para
os

20 

que perseguem, no para os fugitivos. Vede tudo que eu fizer e segui-
me.

(Entra na cidade.) 

PRIMEIRO SOLDADO - Que loucura! No o acompanharei. SEGUNDO SOLDADO -
Nem eu, tampouco.

(Fecham- se as portas da cidade.) 

TERCEIRO SOLDADO - Ei- lo trancado. TODOS - Est perdido, aposto. 

(O alarma continua.) (Volta Tito Lrcio.) 

LRCIO - Que foi feito de Mrcio? TODOS - Morto, chefe, sem dvida
nenhuma. PRIMEIRO SOLDADO - perseguindo bem rente aos calcanhares os
fugintes, entrou com eles. Mas a porta, sbito, sobre ele se fechou.
Est sozinho, para a toda cidade fazer frente. LRCIO -  nobre
companheiro! que insensvel! sendo, faz mais do que o insensvel gldio
e firme se mantm onde este dobra! Ests abandonado, Caio Mrcio. Uma
pedra preciosa de teu porte no fora jia de maior valia. Eras guerreiro
em tudo condizente com os votos de Cato: no s com golpes rudes e
violentos, mas tambm com a tua mirada pavorosa e as atroadoras pancadas
de tua voz, os inimigos estremecer fazias, parecendo que tremia de febre
o mundo todo.

(Volta Mrcio, coberto de sangue, perseguido pelos inimigos.) 

PRIMEIRO SOLDADO - Olhai, senhor! LRCIO -  Caio Mrcio! Vamos libert-
lo ou, se no, morrer com ele. 

(Batem- se, entrando todos na cidade.) 

Cena V 

Corolos. Uma rua. Entram alguns romanos, com despojos. 

PRIMEIRO ROMANO - Levo isto para Roma. SEGUNDO ROMANO - E eu, isto aqui.
TERCEIRO ROMANO - Ora que peste! Parecia prata! 

(O tumulto prossegue ao longe.) (Entram Mrcio e Tito Lrcio, com um
corneteiro.)

MRCIO - Vede essa gente ativa, que avalia seu tempo pelas dracmas j,
fendidas. S colheres de chumbo, travesseiros, ferro velho, gibes como
os carrascos com os prprios donos enterrar costumam...  o com que
estes escravos se preocupam antes de estar a pugna terminada. Abaixo com
eles todos! Vede a bulha que faz o general! Vamos salv- lo! Eis ali o
dio de minha alma, Aufdio, a espetar os romanos... Nobre Tito, ficai
com gente suficiente para segurar a cidade, enquanto eu corro com os que
forem dotados de coragem, a socorrer Comnio.

21 

LRCIO - Caro amigo, ests sangrando muito; teu esforo foi por demais
violento, para em outra refrega te arriscares. MRCIO - Deixai desses
elogios, senhor, que meu trabalho no me esquentou ainda. Passai bem. O
sangue extravasado  mais saudvel para mim que nocivo.  deste modo que
quero ver Aufdio e combat- lo. LRCIO - Agora que Fortuna, a bela
deusa, se enamore de ti e com seus grandes encantamentos deixe
confundidas as espadas imigas. Destemido gentil- homem, que tenhas como
pajem sempre a felicidade. MRCIO - E que no menos amiga se te mostre,
como a quantos ela mais favorece. E agora, adeus! LRCIO - Oh meu
notvel Mrcio!

(Sai Mrcio.) 

Vai logo soar o toque de trombeta na praa do mercado, convocando todos
os oficiais do burgo, para ficarem conhecendo nosso intento. Depressa! 

(Saem.) 

Cena VI 

Perto do acampamento de Comnio. Entra Comnio com suas foras, em
retirada.

COMNIO - Tomai flego, amigos. Combatemos muito bem. Procedemos em tudo
isto como romanos: nem sem pouco tino em nossa resistncia, nem covardes
na hora da retirada. Acreditai- me, senhores, vamos ter novo recontro.
Enquanto nos batamos, nas pausas, o vento nos fazia ouvir a bulha dos
ataques de nossos companheiros. Deuses romanos! dai que eles alcancem
tudo o que para ns tambm queremos, porque nossos exrcitos se juntem
com faces sorridentes e vos prestem, em gratido, solene sacrifcio!

(Entra um mensageiro.) 

Que aconteceu? MENSAGEIRO - Os homens de Corolos as portas transpuseram
da cidade e em luta se acham j com Lrcio e Mrcio. Vi nossos homens
repelidos para nossas trincheiras. Nisso, vim correndo. COMNIO - Embora
digas a verdade, creio que no falaste bem. H quanto tempo foi isso?
MENSAGEIRO - H mais de uma hora, meu senhor. COMNIO - Daqui l h uma
milha. H pouco ouvimos seus tambores. Por que gastaste uma hora para
andar uma milha e nos trazeres notcias atrasadas? MENSAGEIRO -
Sentinelas volscas me perseguiram, obrigando- me a fazer uma volta de
trs milhas ou quatro, mais ou menos. No fora isso, meu senhor, eu
teria em meia hora cumprido esta misso.

22 

COMNIO - Quem aparece naquele ponto, como se tivesse sido esfolado
vivo? Oh deuses grandes! tem a forma de Mrcio, sendo certo que j o vi
desse modo. MRCIO (dentro) - Cheguei tarde? COMNIO - No distingue o
pastor com mais acerto entre o trovo e o rufo de tambores, como eu
distingo a voz do grande Mrcio entre outras mais humildes. 

(Entra Mrcio.) 

MRCIO - Cheguei tarde? COMNIO - Sim, caso no tragais sangue inimigo
como manto, mas prprio. MRCIO -Num abrao como do meu noivado vos
aperto de encontro ao corao to jubiloso como no casamento, quando
tochas para o leito de npcias me levavam. COMNIO - Flor dos
guerreiros, que  de Tito Lrcio? MRCIO - Est ocupado apenas com
decretos, uns  morte condena, outros, a exlio; deste se compadece, a
um outro ameaa, aceita o preo do resgate de outro, Corolos
conservando para Roma tal como dcil galgo na correia que  vontade
afrouxamos. COMNIO - Onde se acha o poltro que me disse que vs
tnheis recuado at s trincheiras? Onde se acha? Chamai- o aqui. MRCIO
- Deixai- o, pois vos disse, to- somente, a verdade. Quanto a nossos
cavalheiros, a plebe numerosa - a peste em todos! e vo ter tribunos! -
nunca do gato correu tanto o rato, como eles de poltres piores do que
eles. COMNIO - Teremos tempo para tais histrias? Onde est o inimigo?
Sois senhores do campo? Se o no sois, por que parastes antes de s- lo?
COMNIO - Mrcio, no tivemos sorte no encontro e fomos obrigados a
recuar at aqui, por estratgia. MRCIO - Onde est o inimigo? Sabeis a
ordem de suas tropas e onde dispuseram seus homens de confiana? COMNIO
- Penso, Mrcio, que as tropas da vanguarda so de antates, as de maior
confiana, sob o mando de Aufdio, o prprio corao de suas mais gratas
esperanas. MRCIO - Pelos prlios em que j temos combatido juntos;
pelo sangue que, juntos, derramamos; por nossos votos de amizade eterna,
conjuro- vos a enviar- me sem demora ao encontro de Aufdio e seus
antates. No deixeis escapar a conjuntura; mas, enchendo o ar de
espadas e de lanas, aproveitemos a hora. COMNIO - Muito embora
preferisse vos ver num grato banho e, aps, os membros reforar com
blsamo, no ouso denegar vosso pedido: escolhei, pois, os que melhor
vos podem auxiliar nessa empresa. MRCIO - Os mais capazes so os de boa
vontade. Assim, vos digo: se houver algum aqui - fora pecado duvid- lo
- que tenha amor  tinta com

23 

que me vejo agora besuntado; que por sua pessoa menos tema do que por um
mau nome, e considere que  prefervel uma herica morte  vida mal
vivida; algum que a ptria coloque muito acima de si mesmo: que esse
valente - seja um s, ou muitos - agite o brao assim, para mostrar- nos
sua disposio, e siga Mrcio.

(Todos prorrompem em exclamaes, agitam as espadas, carregam Mrcio e
jogam os bons para o alto.) 

Oh, deixai- me! Pensais que eu seja espada? Se essas demonstraes forem
sinceras, quem no valer mais que quatro volscos? No h entre vs
outros quem no possa antepor um escudo ao grande Aufdio, to duro
quanto o dele. Muito embora a todos agradea, um certo nmero, somente,
escolher vou. Em qualquer outro recontro os mais tero a sua parte,
conforme as circunstncias o exigirem. Em frente, pois. E agora, bem
depressa, quatro entre vs escolham para minha sortida os mais
dispostos. COMNTO - Ide, amigos, a lealdade provai de vosso gesto;
conosco parte igual tereis em tudo. 

(Saem.) 

Cena VII 

As portas de Corolos. Tito Lrcio, tendo posto sentinelas nas portas de
Corolos, sai da cidade com tambor e corneta, para ir ao encontro de
Caio Mrcio, acompanhado de um tenente, um destacamento de soldados e de
um batedor.

LRCIO - Assim; guardai as portas; cumpri todas as minhas instrues.
Enviai- me aquelas centrias, se eu mandar pedir reforo. TENENTE -
Podeis ficar tranqilo. LRCIO - Entrai, fechando sobre ns vossas
portas. Vamos, guia; conduzenos ao campo dos romanos. 

(Saem.) 

Cena VIII 

Um campo de batalha entre o acampamento dos romanos e dos volscos.
Alarma. Entram por lados diferentes Mrcio e Aufdio. 

MRCIO - S lutarei contigo, pois te odeio mais ainda que a um perjuro.
AUFDIO - Justamente como eu a teu respeito. No possui a frica uma
serpente que eu odeie mais do que a tua glria insuportvel. Firma o p.
MRCIO - Como escravo do outro morra quem primeiro correr e que o
condenem depois os imortais. AUFDIO - Se eu fugir, Mrcio, escorraa-
me como a lebrezinha. MRCIO - H pouco menos de trs horas, Tulo,
sozinho combati em vossos muros. Fiz l o que bem quis. No  meu sangue
que vs a revestir- me. Para tua vingana, pois, arma tua fora ao
mximo.

24 

AUFDIO - Ainda que Heitor tu fosses, o flagelo de que se ufana vossa
altiva raa, no poderias escapar- me agora. 

(Batem- se. Entram alguns volscos em socorro de Aufdio.) 

Serventes, no guerreiros, vosso auxlio amaldioado me cobriu de
oprbrio!

(Saem combatendo, perseguidos por Mrcio.) 

Cena IX 

O acampamento romano. Rebate. Toque de retirada. Fanfarras. Entram, por
um lado, Comnio e soldados romanos; por outro, Mrcio com o brao na
tipia, e outros romanos.

COMNIO - Tivesse eu de contar- te os feitos todos que hoje fizeste, no
darias crdito algum ao que eu dissesse. Mas reservo- me para narr- los
onde os senadores vo misturar com lgrimas sorrisos, onde os grandes
patrcios a princpio encolhero os ombros, acabando por demonstrar
espanto; onde as senhoras, com medo e a estremecer alegremente, querero
ouvir mais; onde os tribunos obtusos e os plebeus embolorados, que dio
entranhado a tua glria votam, a seu mau grado exclamaro: "Aos deuses
agradecemos terem dado a Roma semelhante guerreiro!" De nossa festa s
ters migalhas, pois j comeste  farta. 

(Entra Tito Lrcio com suas tropas, de volta da perseguio ao inimigo.)


LRCIO -  general! eis o corcel; ns somos a gualdrapa, to- somente.
No viste... MRCIO - Deixai disso, por favor. Minha me, que carta
branca possui para exaltar seu prprio sangue, me ofende ao elogiar- me.
No fiz nada que no houvsseis feito, isto : o possvel... Como vs,
animado... Pela ptria foi tudo. Quem mostrou boa vontade, fez o que eu
fiz. COMNIO - No ireis ser o tmulo de vosso prprio mrito;  preciso
que Roma venha a conhecer seus filhos. Fora receptao pior do que
roubo, to vil como a calnia, vossos feitos ocultar e calar os elogios
do que, elevado aos galarins da fama, parecera modesto. Assim, vos peo,
em sinal do que sois, no como prmio do que fizestes, que eu, em vossa
frente fale a nossos soldados. MRCIO - Tenho algumas feridas pelo
corpo, que me doem, quando so relembradas. COMNIO - Se as deixarmos no
esquecimento a ingratido podia faz- las gangrenar, vindo a cur- las,
assim, com a prpria morte. Dos cavalos apreendidos - e h muitos e
excelentes de todos os tesouros que reunimos na cidade e no campo de
batalha, o dcimo vos damos, que apartado dever ser por vossa prpria
escolha, antes da diviso do grande esplio. MRCIO - Agradecido,
general, vos fico; contudo, o corao no me consente receber peita para
minha espada. Recuso- me a aceit- la, persistindo em reclamar o lote,
simplesmente, que me toca em comum com

25 

os que tomaram parte ativa no feito. 

(Fanfarra prolongada. Todos gritam: "Mrcio! Mrcio!" e atiram os bons
e as lanas. Comnio e Lrcio descobrem a cabea.) 

MRCIO - Que no tomem a soar os instrumentos que profanais assim. Se
aduladores na campanha os tambores e as cornetas a tal ponto se mostram,
que nas cortes e cidades pulule o servilismo de refalsado olhar. Quando
o ao fica to brando quanto a seda do vadio, faamos desta a proteo
da guerra. Basta, vos digo. Por no ter ainda lavado o sangue do nariz
nem posto por terra algum coitado, o que fizeram muitos outros tambm
sem mais alarde, exaltais- me com vivas exagerados, como se eu gostasse
de alimentar a minha pouquidade com louvores molhados em mentiras.
COMNIO -  excesso de modstia. Revelais- vos mais desumano para vossa
glria do que reconhecido aos companheiros que vo- la damos com
sinceridade. Com vossa permisso, mas se violncia contra vs prprio
praticais, algemas vos poremos - tal como se procede com quem se
prejudica - e, aps, falamos com calma e segurana. Assim, que fique
conhecido de ns, do mundo todo, que a Mrcio toca a palma da vitria.
Em testemunho disso, presenteio- o com meu nobre cavalo, conhecido no
nosso acampamento, acompanhado de todos os pertences. De hoje em diante,
por causa de seus feitos em Corolos, ser - com a aclamao de todo o
exrcito - chamado Caio Mrcio Coriolano! Possas usar o nome com
nobreza. TODOS - Caio Mrcio Coriolano!

(Fanfarra. Sons de trombetas e tambores.) 

CORIOLANO - Vou lavar- me; depois de limpo o rosto, vereis se eu coro ou
no. De qualquer forma, vos fico agradecido. De bom grado monto em vosso
cavalo, prometendo trazer esse bonito sobrenome como penacho do elmo e
enaltec- lo quanto em mim estiver. COMNIO - Agora vamos para as
tendas; mas antes do descanso escreveremos para Roma sobre nosso grande
sucesso. Tito Lrcio, tereis de retornar para Corolos e nos mandar os
cidados mais dignos com quem posamos conversar acerca dos nossos
interesses e dos deles. LRCIO - Assim farei, senhor. CORIOLANO - J
comearam os deuses a zombar de mim. Havendo neste momento recusado
ddivas principescas, forado ora me vejo a pedir um favor ao general.
COMNIO - De antemo est feito. Que desejas? CORIOLANO - De uma feita
em Corolos hospedei- me em casa de um pobre homem, que acolhida muito
amiga me deu. Vi- o h momentos prisioneiro; gritou para o meu lado. Mas
nesse instante descobri Aufdio, abafando- me a clera a piedade.
Requeiro- vos, assim, a liberdade de meu pobre hospedeiro. COMNIO - Oh!
bem pedido! Fosse ele o matador de um de meus filhos, livre seria como o
prprio vento. Tito, soltai- o. 

26 

LRCIO - Mrcio, e o nome dele? CORIOLANO - Por Jpiter, esqueci! Estou
cansado. Sinto a memria fraca. No teremos vinho aqui perto? COMNIO -
Vinde a nossa tenda. Est secando o sangue em vosso rosto.  tempo de
cuidarmos disso. Vamos.

(Saem.) 

Cena X 

O acampamento dos volscos. Fanfarra. Toque de corneta. Entra Tulo
Aufdio, coberto de sangue, acompanhado de dois ou trs soldados. 

AUFDIO - Foi tomada a cidade! PRIMEIRO SOLDADO - Vai ser restituda em
vantajosas condies. AUFDIO - Condies! Quisera ser romano, pois no
posso, como volsco, ser tudo o que sou mesmo. Condies! Que tratado
conter pode condies boas para uma das partes que  merc est da
outra? Cinco vezes, Mrcio, lutei contigo, e cinco vezes fui derrotado,
o que se dar sempre, quero crer, se medssemos as foras o nmero de
vezes que comemos. Oh! pelos elementos! Se de novo com ele me encontrar
barba com barba, meu ser ou eu dele. J no mostra meu ardor a lealdade
costumeira. Antes, pensava em vir a domin- lo em iguais condies de
resistncia: espada honrosa contra espada... Agora, se de novo o atacar,
de qualquer jeito hei de venc- lo: por astcia ou fora. PRIMEIRO
SOLDADO - Ele  o demnio. AUFDIO - Muito mais ousado, mas menos
astucioso. Envenenado meu valor se acha agora pela ofensa feita por ele.
S por causa dele fugir de si mesmo. Nem santurio, nem sono, o estado
de nudez, de doena, nenhum templo, nem mesmo o Capitlio, a hora do
sacrifcio, as santas preces dos sacerdotes, todos esses bices
antepostos  fria, nada pode doravante antepor seus privilgios e usos
embolorados contra o grande dio que eu voto a Mrcio. Vindo a ach- lo,
seja na minha casa, sob a guarda de meu irmo, e at contra o direito
sagrado que a todo hspede devemos, no sangue de seu corao pretendo
lavar a mo feroz. Ide  cidade saber que fora h l e que pessoas como
refns tero de ir para Roma. PRIMEIRO SOLDADO - E vs, no vindes?
AUFDIO -No; vou esperar- vos no bosque de ciprestes. For obsquio -
fica no sul dos moinhos da cidade - ide contar- me como vai o mundo.
Conforme os passos dele, hei de esforar- me por apressar os meus.
PRIMEIRO SOLDADO - Pois no, senhor.

(Saem.) 

ATO II 

27 

Cena I 

Roma. Uma praa pblica. Entram Mennio, Sicnio e Bruto. 

MENNIO - O ugur me disse que esta noite vamos ter notcias. BRUTO -
Boas ou ms? MENNLO - Pouco conformes aos votos do povo, pois ele no
gosta de Mrcio. SICNIO - A natureza ensina os animais a conhecer os
amigos. MENNIO - For obsquio, a quem ama o lobo? SICNIO - Ao
cordeiro. MENNIO - Sim, para devor- lo, tal como os plebeus famintos
desejariam fazer com Mrcio. BRUTO -  um cordeiro, com efeito, que bala
como urso. MENNIO -  um urso, com efeito, que vive como cordeiro.
Ambos vs sois velhos; respondei ao que vos vou perguntar. SICNIO E
BRUTO - Perfeitamente, senhor. MENNIO - De que enormidade  Mrcio
pobre, que no tenhais em abundncia? BRUTO - Ele no  pobre de nenhum
defeito, seno bem provido de todos eles. SICNIO - Principalmente de
orgulho. BRUTO - E a todos ultrapassa em jactncia. MENNIO - 
extraordinrio! No sabeis em que conceito sois tidos aqui na cidade,
quero dizer, por ns outros da ala direita? No o sabeis? AMBOS - Como
assim? De que nos censuram? MENNIO - J que falais de orgulho... Mas
no ireis ficar zangados, no? AMBOS - Falai, senhor! Falai! MENNIO -
Ora, no tem muita importncia, porque o pequeno ladro oportunidade vos
roubar uma grande dose de pacincia. Soltai as rdeas ao capricho e
ficai aborrecidos quanto quiserdes, no caso de encontrardes prazer
nisso. Censurais Mrcio por causa de seu orgulho? BRUTO - No somos os
nicos a faz- lo, senhor. MENNIO - Sei muito bem que, sozinhos, fazeis
muito pouca coisa, porque sem bastantes auxiliares vossos feitos se
tornam espantosamente escassos. Tendes qualidades muito infantis para,
sozinhos, realizardes muita coisa. Falais de orgulho... Oh! se pudsseis
virar a vista para a nuca e passar em revista vosso interior! Oh! se o
pudsseis! BRUTO - Que aconteceria, senhor? MENNIO - Ora, ento
descobrireis um par de magistrados - alis bobos orgulhosos, sem
merecimento, arbitrrios e cabeudos, como no h iguais em toda Roma.
SICNIO - Mennio, vs tambm sois bastante conhecido. MENNIO - Sim,
sou conhecido como um patrcio bem humorado, que aprecia um bom copo de
vinho quente sem mistura de nenhuma gota do

28 

Tibre; que passa por ter o pequeno defeito de prestar ouvidos s
primeiras reclamaes; vivo e inflamvel aos menores estmulos; um
sujeito que se mostra mais familiar com o traseiro da noite do que com a
fronte da manh... Digo o que penso, gastando nesse esforo toda a minha
maldade. Ao encontrar dois conselheiros como vs - no poderei dizer que
sois Licurgos redivivos - no caso de me ser desagradvel ao paladar a
bebida que me derdes, fao logo uma careta. No poderei dizer que Vossas
Senhorias elucidaram bem a matria, quando descubro asneira em todas as
vossas palavras; e conquanto precise mostrar- me satisfeito com os que
dizem que sois pessoas graves e reverendas, ainda assim mentem
descaradamente os que afirmam que tendes fisionomias agradveis. Se
ledes todas essas coisas no mapa de meu microcosmo, conclui- se que sou
bastante conhecido? Que defeito poder descobrir em meu carter vossa
sagacidade mope, admitindo- se que eu seja mesmo to conhecido assim?
BRUTO - Vamos, senhor; vamos; conhecemos- vos perfeitamente. MENNIO -
No me conheceis, como no conheceis a vs mesmos nem a coisa nenhuma.
S ambicionais os chapus e as pernas dos pobres diabos; gastais uma
saudvel e santa manh s em ouvir uma disputa entre um taberneiro e uma
vendedora de laranja, e adiais para outra audincia essa controvrsia
que no vale trs vintns. Quando estais ouvindo a discusso entre as
partes, se por acaso sois pinados pela clica, fazeis caretas de
mascarados; levantais a bandeira vermelha contra toda pacincia e,
reclamando aos gritos um urinol, despedis uma controvrsia sangrenta,
que fica ainda mais enleada depois de vossa audincia, consistindo todo
o vosso acordo em chamardes de marotos a ambos os litigantes. Um bem
estranho par  o que sois. BRUTO - Vamos, vamos, senhor; v- se
perfeitamente que sois mais hbil como palhao de mesa do que como juiz
no Capitlio. MENNIO - At os nossos sacerdotes se tornam zombadores,
quando encontram tipos ridculos como vs. O que dizeis com mais
discernimento no paga o trabalho que tendes com agitar a barba, no
merecendo vossas barbas tmulo mais honroso do que servir de enchimento
de travesseiro. No entanto dizeis que Mrcio  orgulhoso, Mrcio que,
num clculo muito por baixo, vale por todos os vossos antepassados at
Deucalio, muito embora seja bem possvel que os melhores dentre eles
no tivessem passado de carrascos hereditrios. Muito boa tarde para
Vossas Senhorias. Uma conversao mais prolongada convosco poderia
infectar- me o crebro, por serdes pastores dos bestiais plebeus. Tomo a
ousadia de despedir- me de ambos. 

(Bruto e Sicnio se afastam.) (Entram Volmnia, Verglia e Valria.) 

Ento, minhas formosas e nobres damas - e a lua, se fosse terrena, no
teria mais nobreza - para onde vos leva os olhos com tanta pressa? 

29 

VOLMNIA - Digno Mennio, o meu nobre Mrcio est a chegar. Pelo amor de
Juno, vamos logo! MENNIO - Como! Mrcio est de volta? VOLMNIA - Est,
meu digno Mennio; com a mais feliz confirmao. MENNIO - Fica com o
meu bon, Jpiter, e ainda te agradecerei. Ol! Mrcio est de volta!
VOLMNIA E VERGLIA -  certo!  certo! VOLMNIA - Aqui est uma carta
dele; o governo recebeu outra; sua esposa, uma terceira, e eu penso que
em casa h outra para vs. MENNIO - Hoje  noite porei minha casa de
pernas para o ar. Uma carta para mim! VERGLIA - Sim,  isso; uma carta
para vs. Eu prpria a vi. MENNIO - Uma carta para mim! Isso me deixa
com sade para sete anos, durante os quais assobiarei para o mdico.
Comparada com esse cordial, a mais soberana prescrio de Galeno no
passa de mezinha ridcula, que vale tanto como remdio de cavalo. No
foi ferido? Ele sempre costumava voltar ferido para casa. VERGLIA- Oh!
no, no, no! VOLMNIA - Oh, sim! Est ferido; dou graas aos deuses
por semelhante fato. MENNIO - Como eu tambm o fao, se as feridas no
forem perigosas. Traz a vitria no bolso? As feridas sempre lhe vo bem.
VOLMNIA - Na fronte, Mennio; pela terceira vez ele retorna da guerra
com a coroa de carvalho. MENNIO - E Aufdio, ele castigou com vontade?
VOLMNIA - Tito Lrcio escreveu que eles se bateram, mas Aufdio
conseguiu escapar. MENNIO - Escapou a tempo, posso asseverar- lhe; que
se ele houvesse persistido, eu no desejara ser aufidiuzado daquele
jeito nem por todas as arcas de Corolos. O senado j foi informado de
tudo? VOLMNIA - Sigamos, boas senhoras. Sim, sim, sim; o senado recebeu
cartas do general, que atribui a meu filho toda a glria da guerra.
Nesta campanha ele ultrapassou do dobro suas proezas anteriores. VALRIA
- Realmente, contam- se coisas prodigiosas a seu respeito. MENNIO -
Prodigiosas, sim, posso garantir- vos, e no sem o devido mrito de sua
parte. VERGLIA - Permitam os deuses que sejam verdadeiras. VOLMNIA -
Verdadeiras? Ora! ora! MENINTO - Verdadeiras, sim. Fosso jurar em como
so verdadeiras. Onde  que ele foi ferido? 

(Aos tribunos.) 

Deus guarde Vossas Reverncias! Mrcio est de volta; traz novos motivos
de orgulho.

30 

(A Volmnia.) 

Onde  que ele foi ferido? VOLMNIA - No ombro e no brao esquerdo.
Ficar com cicatrizes grandes, para mostrar ao povo, quando tiver de
pleitear um posto. Na expulso de Tarqunio ele recebeu sete ferimentos.
MENNIO - Um no pescoo e dois na coxa... Que eu saiba, so nove.
VOLMNIA - Antes desta expedio ele tinha vinte e cinco cicatrizes.
MENENIO - Ento, agora tem vinte e sete; cada fenda representa o tmulo
de um inimigo.

(Fanfarras e aclamaes.) 

Escutai: trombetas! VOLMNIA - So os emissrios de Mrcio;  frente ele
traz barulho; atrs s deixa lgrimas. O gnio escuro traz no brao
forte; feroz o vibra:  para todos morte. 

(Sinal de advertncia. Trombetas. Entram Comnio e Tito Lrcio; entre
eles, Coriolano com a coroa de carvalho, capites, soldados e um
arauto.)

ARAUTO - Fica sabendo, Roma, que, sozinho, Mrcio lutou nas portas de
Corolos, onde ganhou, com honra, mais um nome, que a Caio Mrcio
seguir com glria: Coriolano! Bem- vindo sois a Roma, glorioso
Coriolano!

(Fanfarras.) 

TODOS - Sois bem- vindo, glorioso Coriolano! CORIOLANO - Basta! basta!
Isso magoado o corao me deixa. For obsquio,  o bastante. COMNIO -
Olhai, senhor, vossa me. CORIOLANO - Oh! J sei que conjurastes todos
os deuses para o meu bom xito.

(Ajoelha- se.) 

VOLMNIA - No! de p, meu soldado valoroso, meu gentil Mrcio, meu mui
digno Caio, e o nome ganho com recentes glrias... Como ?... Devo
chamar- te Coriolano? Mas, oh! tua mulher! CORIOLANO - Meu gracioso
silncio, salve! Como! Terias rido, acaso, se eu tivesse voltado num
esquife, j que choras por me veres em triunfo?  minha cara! Olhos
assim, somente tm as vivas de Corolos e as mes que os filhos choram.
MENNIO - Possam os deuses coroar- te agora. CORIOLANO - Como! Ainda
vives?

(A Valria.) 

Oh! perdo, senhora! VOLMNIA - No sei para onde me virar. Bem- vindo!
Bem- vindo, general, e assim vs todos. MENNIO - Um milho de bem-
vindos. Posso, a um tempo, chorar e rir; estou pesado e leve. Bem- vindo
sois. Que a maldio atinja de cheio o corao de quem no fica contente
por te ver. Roma devia por vs trs estar

31 

sempre apaixonada. Mas pela f, em nossas terras temos umas macieiras
bravas que no podem ser enxertadas para vosso gosto. No importa.
Bemvindos sois, guerreiros! Urtiga  sempre urtiga; no lhe damos outro
nome; e os defeitos da estultcia sero sempre tolices. COMNIO - Muito
certo. CORIOLANO - Mennio, sempre! sempre! ARAUTO - Abri caminho por
ali e avanai. CORIOLANO - A mo... A vossa tambm. Antes de em casa ir
a cabea refrescar, tenho de ir fazer visita queles bons patrcios que
me encheram no s de cumprimentos, mas, com estes, um fardo de
honrarias. VOLMNIA - Tive vida bastante para ver meus mais ardentes
desejos realizados e concludo o edifcio de minha fantasia. S uma
coisa ainda falta que, estou certa, nossa Roma ter de conceder- te.
CORIOLANO - Ficai sabendo, boa me: prefiro servi- los como entendo a
ser partcipe do comando como eles entenderem. COMNIO - Ao Capitlio,
vamos!

(Fanfarras de cornetas. Saem solenemente como entraram; os tribunos
ficam.)

BRUTO - Todas as bocas falam dele, e para v- lo as vistas j turvas
pem culos. Vossa ama tagarela seu pimpolho deixa gritar a ponto de
afogar- se. s para falar nele; a varredora de cozinha ata em torno do
pescoo pouco limpo seu pano mais valioso e, para olh- lo, se pendura
ao muro. As lojas, as sacadas, as janelas esto cheias, repletos os
telhados; as cumeeiras, montadas por figuras as mais variadas, todos
empenhados, to- s, em contempl- lo. Os prprios flmines, to
raramente vistos, se comprimem por entre a multido e ora se esbofam
para um lugar obterem junto  plebe. Nossas damas de vus a guerra
entregam entre o rosado e o branco em suas faces belamente pintadas aos
estragos livres dos beijos do ardoroso Febo. Tamanha  a confuso, que
at parece que o deus que o guia houvesse, de mansinho, penetrado em seu
corpo transitrio, para graa emprestar- lhe  compostura. SICNIO -
Afirmo desde j que vai ser cnsul. BRUTO - Nossas funes, ento, em
seu governo podero cochilar. SICNIO - Ele no h de ter o comedimento
necessrio para at ao fim levar as honrarias; acabar perdendo o que
ganhou. BRUTO -  o que nos deixa, em parte, mais tranqilos. SICNIO -
No o duvideis um s momento: o povo, que ns representamos, com seu
velho e habitual dio, ao menor pretexto h de esquecer seus ttulos
recentes, sendo ele mesmo que h de oferecer- lhes essa oportunidade,
estou certssimo, mxime porque timbra em demonstr- lo. BRUTO - Jurar o
ouvi que se a pleitear o posto viesse de cnsul, no se mostraria na
praa do mercado, nem as vestes sujas dos suplicantes

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vestiria, nem, como de uso, mostraria as suas cicatrizes ao povo de mau
hlito, para pedir- lhes voto. SICNIO -  muito certo. BRUTO - Foram
suas palavras: preferira no alcanar o posto, a vir a obt- lo por
outro meio que no seja o voto dos senhores e o anelo da nobreza.
SICNIO - Nada me agrada tanto como v- lo persistir nessa idia e p-
la em prtica. BRUTO -  o que far, decerto. SICNIO - E que h de em
nosso proveito redundar, sendo para ele segura destruio. BRUTO - Se
no a dele, ento ser a de nossa autoridade. For isso relembremos aos
do povo o dio que Mrcio votou sempre a todos e como, se pudesse, os
transformara em animais de carga, silenciara seus defensores e cortara
todas as suas liberdades, sobre t- los em tal conceito quanto aos atos
prprios do ser humano e o esforo produtivo, que mais alma no chega a
conceder- lhes do que aos prprios camelos de campanha, que alimentos s
obtm, quando carregam pesados fardos, e pancada a rodo, quando caem sob
a carga. SICNIO - Tal idia, como o dissestes, sugerida a tempo, quando
sua insolncia insuportvel houver deixado o povo mais alerta - sendo
que essa ocasio vir depressa, se excit- lo soubermos, o que muito
mais fcil nos ser do que cachorros aular contra ovelhas - esse o fogo
vai ser que incendiar sua palha seca, e cujas labaredas para sempre vo
deix- lo tisnado.

(Entra um mensageiro.) 

BRUTO - Que h de novo? MENSAGEIRO - No Capitlio vos reclamam. Dizem
que Mrcio vai ser cnsul. Apertarem- se vi mudos para v- lo, e muitos
cegos para ouvi- lo falar. Nossas matronas atiram luvas; damas e
meninas, lenos e charpas  passagem dele. Dobram- se os nobres como se
estivessem ante a esttua de Jove, tendo os prprios comuns feito uma
chuva de trovoada com seus gorros e vivas.  inaudito. BRUTO - Vamos ao
Capitlio; disponhamos de olhos e ouvidos para o dia de hoje, mas de
disposio para o que possa resultar de tudo isso. SICNIO - Irei
convosco.

(Saem.) 

Cena II 

O mesmo, O Capitlio. Entram dois oficiais para colocar almofadas. 

PRIMEIRO OFICIAL - Vamos! vamos! Eles j vm perto. Quantos so os
candidatos para o consulado? 

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SEGUNDO OFICIAL - Trs,  o que dizem; mas todos esto certos de que
Coriolano ganhar o pleito. PRIMEIRO OFICIAL -  um sujeito valente, mas
orgulhoso a conta inteira, e no gosta do povo comum. SEGUNDO OFICIAL -
For minha f, h muitas personagens de projeo que adularam o povo, sem
nunca lhes terem dedicado a menor afeio, como h outros que o povo
amou sem saber porqu. Ora, se o povo ama sem saber porqu, tambm odeia
sem maior fundamento. Assim, no se preocupando nem com o amor nem com o
dio que os plebeus possam votar- lhe, Coriolano prova que conhece
perfeitamente a disposio de todos eles, o que revela  saciedade com
sua nobre indiferena. PRIMEIRO OFICIAL - Se ele no se preocupa nem com
o dio nem com o amor dos plebeus, mantm- se em equilbrio, sem lhes
fazer bem nem mal. Mas a verdade  que procura o dio deles com mais
empenho do que eles poderiam ser capazes de revelar- lho, sem deixar por
fazer nada que possa apresent- lo como inimigo declarado de todos. Ora,
procurar to abertamente o dio e o descontentamento do povo  to
prejudicial como o que ele prprio reprova; adul- lo para obter- lhe as
graas. SEGUNDO OFICIAL - Ele se tornou benemrito da ptria; sua
ascenso no se fez por degraus to suaves como os dos que subiram 
fora de se mostrarem insinuantes e corteses para o povo, desfazendo- se
em zumbaias, sem que nada mais houvessem feito para se afirmarem em sua
estima e apreciao. No; de tal modo plantou ele a honra nos olhos de
todos e seus grandes feitos no corao do povo, que ficarem caladas as
bocas, sem proclamarem essa verdade, fora ingratido culposa, e
contest- lo, maldade inominvel que, dando a si prpria o desmentido,
provocaria de quem quer que o ouvisse protestos e reprovaes. PRIMEIRO
OFICIAL - Bem; no falemos mais dele;  um homem digno. Abramos caminho,
que eles j esto chegando.

(Toque de trompa. Entram, precedidos de lictores, o Cnsul Comnio,
Mennio, Coriolano, grande nmero de senadores, Sicnio e Bruto. Os
senadores sentam- se em seus lugares; os tribunos sentam- se  parte.) 

MENENIO - O negcio dos volscos terminado e aps termos mandado a Tito
Lrcio ordem para voltar, o assunto mximo desta nossa reunio
extraordinria vai consistir em premiar os nobres servios de quem soube
com tal xito defender sua ptria. Assim, vos resta pedir agora,
venerandos padres, que o atual cnsul que na feliz campanha foi nosso
general nos conte um pouco de todas as aes extraordinrias feitas por
Caio Mrcio Coriolano, a quem agradecer agora vamos e enaltecer com
honras dignas dele. PRIMEIRO SENADOR - Bom Comnio, falai, sem omitir
nada por ser extenso, convencendo- nos de que antes poder mostrar- se
Roma deficiente no prmio do que falhos de gratido seus filhos. 

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(Aos tribunos.) 

De vs outros, tribunos populares, reclamamos amigvel ouvido e, aps, a
vossa benigna interferncia junto ao povo, para que aprove quanto aqui
fizermos. SICNIO - Aqui comparecemos convocados para um pacto amigvel,
encontrando- nos de corao dispostos a dar honras ao assunto agitado e
a incentiv- lo. BRUTO - O que faremos tanto mais felizes, se doravante
ele mostrar que o povo tem em mais alto apreo do que sempre revelou no
passado. MENNIO - Vamos logo! Passemos ao que importa. Prefervel fora
nada dizer. No querereis ouvir falar Comnio? BRUTO - De bom grado;
mas minha restrio tem mais cabida do que vossa censura. MENENIO - Ele
aprecia vosso povo; mas no deveis for- lo a dormir a seu lado. Agora
fale o mui digno Comnio.

(Coriolano se levanta e faz meno de retirar- se.) No; ficai. PRIMEIRO
SENADOR - Sentai- vos, Coriolano, sem corardes das gloriosas aes que
praticastes. CORIOLANO - Nobres, perdoai- me; mas preferiria ter de
pensar de novo estas feridas a ouvir contar como cheguei a obt- las.
BRUTO - Quero crer, meu senhor, que no deixastes vosso lugar por causa
do que eu disse. CORIOLANO - Oh no, senhor! Porm j se tem dado
resistir eu a golpes e, no entanto, pr- me em fuga por causa de
palavras. No me adulastes; logo, no feristes. Vosso povo, avalio- o
pelo peso. MENNIO - For obsquio, sentai- vos. CORIOLANO - Preferira
que ao sol o crnio todo me arranhassem, quando soasse o alarma, a aqui
sentar- me sem fazer coisa alguma e ouvir meus nadas transformados em
monstros assombrosos.

(Sai.) 

MENNIO - Homens do povo, como poderia ele adular vossa cambada infinda
- onde, entre mil, um bom, somente, se acha - quando, como estais vendo,
ele prefere todos os membros arriscar pela honra, a deixar que um s
ouvido oua seus feitos? Comnio, principiai. COMNIO - A voz me falta.
Proclamados no podem ser os feitos de Coriolano por um peito dbil. A
virtude suprema - afirmam todos -  a coragem, que mais que tudo os
homens eleva e dignifica. Sendo certa semelhante premissa, em todo o
mundo no h quem possa ser equiparado ao varo de que falo. Quando
tinha dezesseis anos e Tarqunio contra Roma se levantou, ele nas pugnas
se distinguiu de todos. O ento nosso ditador, a quem cito com louvores,
o viu lutar, tendo testemunhado como ele, com seu queixo de amazona,
correr fazia lbios bigodudos. Defendeu um romano que cara, tendo, 
vista do cnsul, derrubado trs dos opositores. Sim, ao

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prprio Tarqunio se atreveu e o fez, de um golpe, tocar com o joelho em
terra. Nesse dia de altos feitos, em que ele poderia representar como
mulher na cena, provou ser o mais farte da campanha e alcanou a coroa
de carvalho. Tendo passado, assim, da adolescncia para virilidade to
gloriosa, como o oceano cresceu, e no entrechoque de dezessete pugnas,
depois disso, os louros empalmou dos gldios todos. De seu ltimo feito,
diante e dentro de Corolos, confesso que no posso, falar como devera.
Fugitivos soube deter, e por seu raro exemplo fez os covardes terem por
brinquedo quanto era, ento, terror. Como sargaos diante da quilha de
um navio  vela, dobravam- se os imigos e ficavam debaixo de seu beque.
Sua espada, timbre da morte, no deixava nunca de marcar no alvo certo.
Da cabea aos ps era uma coisa s de sangue, cujas passadas eram
concertadas com gritos de agonia. Ele, sozinho, entrou na mortal porta
da cidade que tingiu com o destino inevitvel; sem auxlio, escapo e, de
repente, com sbito reforo foi em cima, de Corolos cair como um
planeta. Tudo, ento, lhe pertence. E quando, aos poucos, o clangor da
batalha o ouvido fino comeou de ferir- lhe, in continenti duplamente
restauram- lhe os espritos o que na carne se encontrava lasso, e voltou
para a luta, onde passava fumegante por sobre a vida de homens como se
fosse a destruio perptua. E s quando a cidade e o vasto campo
pudemos chamar nosso, foi que pausa ele se permitiu, para que flego
viesse enfim a tomar. MENNIO - Digno romano! PRIMEIRO SENADOR -
Adequadas  sua envergadura so as honras que vamos conferir- lhe.
COMNIO - Em nosso esplio deu com o p, olhando para as coisas mais
ricas, como se elas no passassem de escria vil terrena. Cobia menos
do que poderia dar- lhe a prpria misria. A recompensa de seus atos, e
encontra- a em realiz- los, e, arrematando- os, passa alegre o tempo.
MENNIO -  nobre em toda linha. Convocai- o. PRIMEIRO SENADOR - Que
chamem Coriolano! OFICIAL - J vem vindo.

(Volta Coriolano.) 

MENNIO - Alegra- se o senado, Coriolano, em fazer de ti cnsul.
CORIOLANO - Minha vida sempre lhes deverei e meus servios. MENENIO - S
falta dirigirdes- vos ao povo. CORIOLANO - Peo- vos dispensardes- me
desse uso, pois no posso vestir a loba humilde, de cabea despida
apresentar- me e suplicar ao povo que por minhas feridas me conceda seus
sufrgios Dispensai- me, vos peo, dessa parte. SICNIO - Senhor, o povo
deve ter seu voto. Jamais abatero uma partcula desse cerimonial.
MENNIO - No forceis muito, por favor; conformai- vos a essa praxe e
recebei essa honra como todos vossos predecessores: como  de uso. 

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CORIOLANO -  uma comdia que eu s represento vermelho de vergonha e
que podia muito bem ser do povo retirada. BRUTO ( parte, a Sicnio) -
Estais vendo? CORIOLANO - Gabar- me diante deles: "Fiz isto e aquilo!"
patentear- lhes minhas cicatrizes incuas, que de todos eu devera
ocultar, como se houvesse ganho essas marcas s pelo salrio do hlito
deles todos! MENNIO - Basta! Basta! No insistais sobre isso. A vs,
tribunos do povo, apresentamos a proposta, e ao nosso nobre cnsul
desejamos honra e felicidade! SENADORES - A Coriolano honra e
felicidade!

(Fanfarra. Saem todos, com exceo de Sicnio e Bruto.) 

BRUTO - S por isso, vedes como ele vai tratar o povo. SICNIO - Oh!
possam eles perceber- lhe o intento! Irs falar- lhes como quem se
indigna de que dependa deles conceder- lhes o que lhes vai pedir. BRUTO
- Vamos embora. Vou inform- los do que aqui fizemos. Tenho cincia de
que nos esperam na praa do mercado.

(Saem.) 

Cena III 

O mesmo. O foro. Entram vrios cidados. 

PRIMEIRO CIDADO - Em resumo: se ele pedir nossos votos, no devemos
negar- lhos. SEGUNDO CIDADAD - Poderemos, senhor, se o quisermos.
TERCEIRO CIDADAO - Temos esse direito; mas  um direito que no temos o
direito de exercer. Forque se ele nos mostrar suas feridas e nos relatar
seus feitos, teremos de emprestar nossas vozes quelas feridas e de
falar por elas. Desse modo, se ele nos contar seus nobres feitos, por
nossa parte teremos de exprimir- lhe nossa nobre aprovao. A ingratido
 coisa monstruosa; deixar que a multido se torne ingrata  transform-
la em monstro; ora, sendo ns membros da multido, passaremos a ser
membros monstruosos. PRIMEIRO CIDADO - No ser precisa muita coisa
para que no seja muito melhor do que isso o juzo que ele faz de todos
ns, porque no tempo em que nos amotinamos por causa do trigo ele no
vacilou em chamar- nos de monstro de mil cabeas. TERCEIRO CIDADO -
Muita gente j nos tem dado esse nome, que no vem do fato de haver
entre ns cabeas louras, castanhas, pretas ou calvas, mas de termos o
esprito de colorido diferente. E, em verdade, estou convencido de que
se todos os nossos pensamentos tivessem de sair de um s crnio, voariam
de pronto para leste, norte e sul, s havendo unanimidade, quanto ao
caminho direito, em se dispersarem imediatamente pelos quatro pontos
cardeais.

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SEGUNDO CIDADO - Essa  a vossa opinio? Para que lado, ento, pensais
que meu pensamento voaria? TERCEIRO CIDADO - Ora, vosso pensamento no
escaparia to velozmente como o de qualquer outra pessoa; est muito
fortemente encavilhado numa cabea de pau. Mas no caso de libertar- se,
 certeza que seguiria para o lado do sul. SEGUNDO CIDADO - E por que
para esse lado? TERCEIRO CIDADO - Para perder- se num nevoeiro; depois
de ficar com trs quartas partes dissolvidas nas brumas ptridas,
retornaria a quarta, por questo de conscincia, para ajudar- vos a
arranjar uma mulher. SEGUNDO CIDADO - Estais, sempre com brincadeiras.
Continuai! continuai! TERCEIRO CIDADO - Estais, portanto, resolvidos a
dar o vosso voto? Pouco importa.  a maioria que decide. Penso que se
ele se inclinar para o povo, no haver homem mais digno.

(Entra Coriolano, com traje humilde, e Mennio.) 

A vem ele com vestes humildes; observai sua atitude. No devemos ficar
juntos; passemos por ele insuladamente, ou em grupos de dois e de trs.
Ter de fazer o pedido a cada cidado, com o que cada um de ns ganhar
honra em dar- lhe o voto com a prpria voz e a prpria boca. For isso,
acompanhai- me, que eu vos indicarei o modo de vos aproximardes dele.
TODOS - De acordo! de acordo!

(Saem os cidados.) 

MENNIO - Senhor, estais errado; pois decerto sabeis que os cidados
mais conceituados assim mesmo fizeram. CORIOLANO - De que modo falar-
lhes? "Peo- vos, senhor..." Malditos! No posso pr a lngua nesse
passo. "Contemplai, meu senhor, estas feridas; no servio da ptria
ganhei todas, quando muitos dos vossos companheiros aos urros
debandavam, s de ouvirem nossos prprios tambores." MENNIO - Pelos
deuses! no faleis assim. Deveis lev- los a pensar sobre vs. CORIOLANO
- Pensar em mim? Que se enforquem! Prefiro que se esqueam do que me diz
respeito, como o fazem com a virtude que, em pura perda, os padres
gastam com eles todos. MENNIO - Desse modo estragareis tudo. Vou
deixar- vos. For obsquio, falai- lhes, por obsquio, por maneira
razovel. CORIOLANO - Nesse caso mandai que todos vo lavar o rosto e
limpar mais os dentes. 

(Sai Mennio.) 

Eis que chega uma parelha deles. 

(Voltam dois cidados.) 

com certeza sabeis, senhor, por que me encontro aqui. PRIMEIRO CIDADO -
Perfeitamente, senhor; dizei- nos o que vos levou a isso. 

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CORIOLANO - Meu prprio mrito. SEGUNDO CIDADO - Vosso prprio mrito!
CORIOLANO - Sim, que no foi meu desejo. PRIMEIRO CIDADO - Como! No
vosso desejo? CORIOLANO - No, senhor, pois nunca desejei incomodar com
pedidos os pobres. PRIMEIRO CIDADO - Deveis imaginar que se vos dermos
alguma coisa ser com a esperana de obter alguma recompensa. CORIOLANO
- Ento dizei- me, por obsquio, qual  o preo do consulado? PRIMEIRO
CIDADO - O preo  um pedido delicado. CORIOLANO - Delicado! Ora,
senhor! concedei- mo, por obsquio. Tenho que mostrar- vos cicatrizes, o
que poderei fazer em particular. Vosso bom voto, senhor... Que me
dizeis? SEGUNDO CIDADO - Ser vosso, digno senhor. CORIOLANO - Negcio
feito, senhor. Ao todo, j mendiguei dois dignos votos. Aceito vossos
bolos. Adeus. PRIMEIRO CIDADO - Tudo isso  um pouco estranho! SEGUNDO
CIDADO - Se tivssemos de conced- lo de novo... Ora! no importa.

(Saem os dois cidados.) (Voltam dois outros cidados.) 

CORIOLANO - Por obsquio, se se concilia com o tom de vossa voz que eu
venha a ser cnsul, aqui me encontro com as vestes do estilo. TERCEIRO
CIDADO - Tomastes- vos com nobreza merecedor da ptria, e no vos
tomastes merecedor com nobreza. CORIOLANO - Vossa charada? TERCEIRO
CIDADO - Fostes flagelo para os inimigos dela; fostes aoite para seus
amigos. O certo  que jamais amastes o povo comum. CORIOLANO - Tanto
maior  o cabedal de virtude que devereis levar  minha conta, por eu
no ter sido comum em minhas afeies. Vou adular, senhor, meus irmos
jurados, as pessoas, do povo, para merecer deles mais cordial estima...
por ser essa a condio que eles consideram amvel. E por preferirem
eles, em sua sabedoria, meu chapu a meu corao, vou exercitar- me nas
curvaturas aduladoras, para sair- me do caso com o maiscompleto
fingimento. Quero dizer, senhor, vou imitar a fascinao de algum homem
popular e conced- la a mancheias a quantos a desejarem. Por isso,
concordai, vos peo em que eu venha a ser cnsul. QUARTO CIDADO -
Esperamos encontrar em vs um amigo; por isso, de corao vos damos
nossos votos. TERCEIRO CIDADO - Recebestes muitas feridas na defesa da
ptria. CORIOLANO - No desejo selar vosso conhecimento com mostrar- vo-
las. Farei grande cabedal de vossos votos, no desejando incomodar- vos
por mais tempo.

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AMBOS OS CIDADOS - Que os deuses vos dem alegria, senhor, de todo o
corao.

(Saem.) 

CORIOLANO - Que votos agradveis! Antes morrer de fome, alarvemente, do
que ter de pedir a tanta gente quanto j nos pertence. Como logo
vestido, assim, que fao - grande bobo! - pedindo a Pedro e a Joo o
voto estulto? Chamam a isso costume;  quase um culto; mas se seguirmos
o costume em tudo, o p do tempo ficar rabudo, e tal montanha de erros
se levanta, que a verdade, de vez, enfim suplanta. Se no quiser
estupidificar- me deixemos logo o ofcio com seu carme para quem se
dispe a exercit- lo. J consegui vencer meio intervalo. Ora, tendo
sofrido uma metade, a outra, por isso, perecer no h de. Eis outros
votos que nos chegam.

(Voltam mais trs cidados.) 

Vossos votos, senhores. Foi por vossos votos que eu combati; velei por
vossos votos; recebi duas dzias de feridas, ou mais, por vossos votos.
Vi batalhas e ouvi trs vezes seis; s pelos vossos votos fiz muitas
coisas; umas, grandes; outras, pequenas. Bem; os vossos votos. Desejara
ser cnsul. QUINTO CIDADO - Ele se conduziu com nobreza, no podendo,
portanto, deixar de alcanar o voto das pessoas honestas. SEXTO CIDADO
- Ento, que se torne cnsul. Que os deuses lhe concedam alegria e o
faam amigo do povo. TODOS - Amm! Amm! Deus te proteja, nobre cnsul!

(Saem os cidados.) 

CORIOLANO - Dignos votos! 

(Volta Mennio, com Bruto e Sicnio.) 

MENNIO - Passastes bem o prazo estipulado. Os tribunos vos do a voz do
povo. Agora s vos resta pr as vestes oficiais e logo ir para o senado.
CORIOLANO - Aqui j terminou? SICNIO - Satisfizestes os costumes do
rogo. Assim, o povo vos aprova, ficando convocado para a confirmao de
vossa escolha. CORIOLANO - Onde isso? No senado? SICNIO - Sim, l
mesmo. CORIOLANO - Posso trocar de roupa? SICNIO - Sim, mui digno
senhor; podeis. CORIOLANO - Vou fazer isso logo; e, depois de voltar a
ser eu mesmo, irei para o senado. MENNIO - Irei convosco. No vindes?
BRUTO - Vamos esperar o povo. SICNIO - Passai bem. 

(Saem Coriolano e Mennio.) 

Alcanou o que queria. No olhar revela, quero crer, o ardor que tem no
corao.

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BRUTO - Com que arrogncia envergou ele as vestes da humildade!
Despedireis o povo?

(Voltam os cidados.) 

SICNIO - Ento, meus mestres? Elegestes esse homem? PRIMEIRO CIDADO -
Teve os nossos votos, senhor. BRUTO - S peo aos deuses que ele merea
vosso amor. SEGUNDO CIDADAO - Amm, senhor. Segundo minha humilde
observao, de ns zombava ao nos pedir os votos. TERCEIRO CIDADAO - 
certo: motejou de ponta a ponta. PRIMEIRO CIDADO - No, no zombou de
ns; fala assim mesmo. SEGUNDO CIDADO - A no ser vs, h quem no
afirme que nos tratou com insolncia extrema. No nos mostrou as
cicatrizes de honra que recebeu lutando pela ptria. SICNIO - Como!
Mostrou; tenho certeza disso. TODOS - No! No! Ningum as viu. TERCEIRO
CIDADO - Somente disse que tinha cicatrizes e que estava pronto a
mostr- las em particular. Agitando, depois, com ar de escrnio, deste
modo, o chapu, "Desejaria ser cnsul disse, "e cnsul no consente o
uso antigo que seja sem que obtenha vossos votos. Por isso: vossos
votos!" E aps lhos concedermos: "Agradeo", prosseguiu, "vossos votos;
obrigado vos sou por esses votos inefveis. Mas, uma vez que vos
comprometestes, liquidemos as contas". No  isso, dizei, puro sarcasmo?
SICNIO - E como fostes to ignaros que no o percebestes, ou, tendo- o
percebido, revelastes tamanha ingenuidade, para dar- lhe vosso voto
amigvel? BRUTO - No podeis ter- lhe dito, tal como vos instrumos,
que quando ele no tinha fora alguma, qual subalterno servidor do
Estado, era vosso inimigo, falou sempre contra vosso direito e os
privilgios de que gozais no corpo da repblica? E agora, aps ter
alcanado um posto poderoso no leme do governo, se continuar a se
mostrar imigo maligno dos plebeus, no poderia dar- se que vossos votos
a ser venham a maldio que contra vs se vira? Devereis ter dito que
assim como seus dignos feitos mereciam quanto pretendia ele ento,
tambm seria de esperar que ele em sua natureza graciosa se lembrasse de
vs todos e dos votos pedidos, transformando- se em amizade a sua
malquerena e ele em vosso afetuoso protetor. SICNIO - Essa linguagem,
como vos dissemos antecipadamente, lhe teria calado fundo na alma e
posto  prova seu pendor verdadeiro, sobre ter- lhe promessas amigveis
arrancado, de que depois vos aproveitareis conforme as ocasies; ou
ento deixara corroda sua natureza abrupta, que no se dobra a
imposio nenhuma. Ora, uma vez zangado, podereis ter tirado partido de
sua clera, para no eleg- lo. BRUTO - Percebestes o sarcasmo com que
ele vos falava, pedindo vosso apoio, quando tinha necessidade de
alcanar uns votos, e imaginais que seu

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desprezo nunca vir a vos ser nocivo, quando fora ele tiver para
esmagar a todos? Como! No tendes corao no corpo? S lngua para
gritar contra os prprios preceitos da razo? SICNIO - J recusastes
muitos pedintes, para agora dardes a quem nada pediu e riu de todos,
vossos sufrgios to solicitados? TERCEIRO CIDADO - No foi ainda
confirmado; fcil nos fora recus- lo. SEGUNDO CIDADO - E assim
furemos; tenho quinhentos votos desse timbre. PRIMEIRO CIDADO - E eu
duas vezes isso, sem contarmos os votos dos amigos deles todos. BRUTO -
Ide logo dizer a esses amigos que eles agora um cnsul elegeram que os
privar de suas liberdades e a voz dos ces, apenas, vai deixar- lhes,
nos quais batemos por ladrarem, sendo que os criamos para isso. SICNIO
- Ide reuni- los; e que, aps julgamento mais sadio, essa escolha
desfaam mais que estpida. Insisti sobre o orgulho e no velho dio que
sempre vos dicou, e, sobretudo, no deixeis de falar no alto desprezo
com que envergou as vestes da humildade; como vos desprezava com toda a
alma. Lembrai, porm, que vossas simpatias, tomando em conta seus atuais
servios, a esquecer vos levou sua conduta neste momento, impertinente e
ftil, pauta apenas no dio inveterado que a todos vs dedica. BRUTO -
Toda a culpa descarregai em ns, vossos tribunos, dizendo que nos
esforamos para remover os obstculos, fazendo que vossa escolha
recasse nele. SICNIO - Dizei- lhes que o escolhestes mais por nossas
injunes do que mesmo iluminados por vossos verdadeiros sentimentos; e
que, tendo ocupado, assim, o esprito mais com o que vos impunham do que
mesmo com o que fazer, apenas, devereis, contra vossos desejos o
elegestes para esse cargo. Ponde em ns a culpa. BRUTO - Isso! No nos
poupeis, dizendo a todos como vos doutrinamos vrias vezes sobre os
servios que ele, ainda to jovem, prestou a nossa terra e continua
prestando, e sobre o trono originrio, a casa nobilssima dos Mrcios,
de onde Anco Mrcio veio, aquele filho de uma filha de Numa, que o
reinado aqui teve depois do grande Hostlio. Da mesma casa foram Pblio
e Quinto, que a melhor gua por canais nos deram... Mais: Censorino,
assim apelidado - com honra, pois censor foi duas vezes - foi mui
glorioso antepassado dele. SICNIO - Com uma origem dessas e, por cima,
com predicados prprios que o tornavam digno do posto, fui recomendado
por ns a vossa estima. Mas achastes, depois de sopesar sua conduta
presente com o passado, que ele  vosso figadal inimigo e que, por isso,
retirais vosso voto irrefletido. BRUTO - Dizei- lhes que jamais tereis
feito tal coisa - insisti muito nesse ponto - sem nossa sugesto. E
quando todos estiverem reunidos, dirigi- vos direto ao Capitlio. 

42 

TODOS - Assim faremos. Quase todos esto arrependidos de semelhante
escolha.

(Saem os cidados.) 

BRUTO - Que prossigam. Ser melhor correr os riscos deste levantamento
do que, sem certeza, condies mais propcias esperarmos. Se, com o
gnio que tem, ficar furioso com a recusa deles, observemos bem sua
clera e tiremos dela o mximo proveito. SICNIO - Ao Capitlio! Antes
da onda do povo l estaremos, parecendo, o que em parte  verdadeiro,
que por impulso prprio agiram, quando, de fato, os aguilhoamos.

(Saem.) 

ATO III Cena I 

Roma. Uma rua. Cornetas. Entram Coriolano, Mennio, Comnio, Tito
Lrcio, senadores e patrcios. 

CORIOLANO -  certo, ento, que Tulo Aufdio se acha novamente de p?
LRCIO - Perfeitamente, senhor, sendo essa a causa de nos termos unido
to depressa. CORIOLANO - Ento os volscos se encontram como no
princpio, prontos, conforme as circunstncias, a atacar- nos. COMNIO -
To gastos, senhor cnsul, esto todos, que mui dificilmente em nossas
vidas veremos seus pendes outra vez soltos. CORIOLANO - Vistes Aufdio?
LRCIO - Veio procurar- me com passe livre, tendo amaldioado todos os
volscos, por cedido haverem a cidade com tanta covardia. Retirou- se
para ntio. CORIOLANO - Falou de mim? LRCIO - Falou, senhor, CORIOLANO
- Mas como? Que disse? LRCIO - Que convosco se encontrara muitas vezes,
espada contra espada; que no h coisa alguma sobre a terra de que ele,
como a vs, tanto dio tenha, e que de grado arriscaria todos os seus
bens em parada perigosa, contanto que pudesse ser chamado de vosso
vencedor. CORIOLANO - Vive ora em ntio? LRCIO - Em ntio. CORIOLANO -
Desejara ter motivo para ir l procur- lo e, assim, opor- me de cheio,
ao seu rancor. Sois mui bem- vindo. 

(Entram Sicnio e Bruto.) 

Os tribunos do povo, vede! a lngua da boca dos comuns! Tenho por eles
s desprezo, por causa da maneira por que se pavoneiam nos seus cargos.
No h pacincia nobre que os suporte. 

43 

SICNIO - Parai a! CORIOLANO - Que  que houve? Que acontece? BRUTO -
Seria perigoso ir mais adiante. CORIOLANO - Qual foi a causa de uma tal
mudana? MENNIO - Que aconteceu? COMNIO - No foi, acaso, eleito pelos
nobres e, assim, pelos comuns? BRUTO - No, Comnio; no foi. CORIOLANO
- Ento s obtive votos de criana? PRIMEIRO SENADOR - Abri- nos o
caminho, tribunos; ele vai para o mercado. BRUTO - Exaltado contra ele
se acha o povo. SICNIO - Detende- vos; se no, sair barulho. CORIOLANO
- Esse  o vosso rebanho? Ser digno de votar quem promete seu sufrgio
para, no mesmo instante, retir- lo? Que foi feito de vossa autoridade?
Se a boca sois do povo, por que causa no dirigis seus dentes?
Porventura no os espicaastes? MENNIO - Calma! calma! CORIOLANO -  de
caso pensado; houve conjura para dobrar o voto da nobreza. Tolerai isso
e, aps vivei com quem no sabe nem mandar nem ser mandado. BRUTO - No
faleis de conjura. O povo grita que o ludibriastes e que h pouco tempo,
quando foi distribudo trigo grtis, vs murmurastes e fizestes troa de
seus representantes e os chamastes de criados do momento, aduladores,
inimigos dos nobres. CORIOLANO - Mas tudo isso era mais que sabido.
BRUTO - No de todos. CORIOLANO - Quer dizer que depois os informastes?
BRUTO - Eu, inform- los? Como! CORIOLANO - Sois capazes de semelhantes
atos, BRUTO - Pelo menos sou capaz de melhores do que os vossos.
CORIOLANO - Ento, por que eu teria de ser cnsul? Oh! pelas nuvens!
Arranjai um jeito de, como vs, eu me tornar inepto e me nomeai tribuno
ao vosso lado. SICNIO - Revelais em excesso o que tem feito tanto
excitar o povo. Se quiserdes alcanar o alvo a que visais, foroso vos
ser procurar a estrada certa, de que vos afastais, com outro esprito,
ou nunca alcanareis o nobre posto de cnsul, nem sereis jungido ao lado
dele como tribuno. MENNIO - Ficai calmos. COMNIO - Semelhantes
trapaas no so dignas de Roma, nem merece Coriolano que atiremos com
tanta falsidade na estrada reta de seu grande mrito lixo to desonroso.
CORIOLANO - Ora! falarem- me de trigo! Novamente vou dizer- vos qual foi
o meu discurso. MENNIO - No agora! Depois! Depois! 

44 

PRIMEIRO SENADOR - Nem nesse estado de alma, caro senhor. CORIOLANO -
Por minha vida, agora! Quero falar. Meus nobres companheiros, peo vosso
perdo. Quanto aos muitos, mutveis sempre, e sempre mal cheirosos, que
em mim venham mirar- se - que eu a ningum adulo - e se conheam.
Repito: lisonjeando- os desse modo, contra nosso senado alimentamos o
germe da revolta, da insolncia, da rebelio, lanado por ns prprios
no sulco aberto e no terreno ao longe semeado e dispersado, com os
termos trazido para o nmero dos nobres que de virtude nem poder
carecem, seno das que deixamos aos mendigos. MENNIO -  o bastante! 
o bastante! PRIMEIRO SENADOR - Nem mais uma palavra, por obsquio.
CORIOLANO - Nem mais uma? Como! Do mesmo modo que na guerra o sangue
derramei por minha ptria sem temer fora externa, ho de palavras
cunhar os meus pulmes at pararem, contra estes lazarentos, que
receamos possam contaminar- nos, mas fazemos tudo para pegar a doena
deles. BRUTO - Falais do povo como se um deus fsseis para punir, e no
um homem fraco como qualquer um deles. SICNIO - Bom seria que fssemos
falar ao povo disso. MENNIO - Como! Falar de qu? De sua clera?
CORIOLANO - Clera? Embora eu fosse calmo como o sono da meia- noite
pelo grande Jove! - meu modo de pensar seria o mesmo. SICNIO -  um
modo de pensar que ficar deve, como veneno que , no lugar prprio, sem
que continuar possa a ser nocivo. CORIOLANO - Deve ficar? Ouvistes o que
disse o trito das sardinhas? Percebestes seu absoluto "deve"? COMNIO -
Foi um lapso de expresso. CORIOLANO - Como! "Deve"?  generosos mas
levianos patrcios! Como, graves senadores, porm imprevidentes,
permitistes a essa hidra que escolhesse representante para, com um
"deve" impudente, ele que , tos, a tromba e o barulho do monstro, ter
o ousio de pretender mudar num fosso estreito a corrente de vossa
autoridade, transformando no dele vosso leito? Se ele  potente, ento
acomodai- vos em vossa estupidez; se no, que acorde vossa indulgncia
mais que perigosa. Se sois esclarecidos, que no seja vossa conduta como
a dos idiotas; no o sendo, ento, que eles tambm se sentem ao vosso
lado em moles almofadas. Sois plebeus, se eles forem senadores; e menos
no sero desde que, tendo misturado seus votos com os dos nobres, sente
o fino padar ao gosto deles. Escolheram os seus representantes do tipo
deste que anteps seu "deve", seu "deve" popular, a este conclave de
graves senadores, como nunca franziu outro na Grcia o cenho augusto.
Por Jove! Isso rebaixa nossos cnsules. Sofro at o fundo da alma,
quando vejo dois poderes de p, sem que o primado nenhum alcance, 

45 

e como facilmente penetra a confuso no espao entre ambos, vindo,
assim, mutuamente a se destrurem. COMNIO - Bem: mas vamos  praa do
mercado. CORIOLANO - Quem teve a idia de distribuir grtis o trigo dos
depsitos, tal como algumas vezes j se fez na Grcia... MENNIO - Muito
bem! muito bem! Sobre isso basta. CORIOLANO - ... embora o povo l
tivesse muito mais fora que entre ns, com isso apenas trabalhou para a
runa da repblica. BRUTO - Como! Poder o povo dar seu voto para quem
fala assim? CORIOLANO - Vou dar- vos minhas razes, que valem mais que o
voto deles. Eles tinham certeza de que o trigo que lhe demos no era
recompensa por coisa alguma, pois jamais haviam feito jus a tal prmio.
Quando instados para a guerra, no instante em que a repblica atingida
se via nas entranhas, no ousaram pr p fora das portas. Merecer
servio desse gnero distribuio de trigo? Na campanha, seus motins e
revoltas, com os quais todos sobretudo mostravam valentia, a favor deles
no falavam nunca. As recriminaes que, to freqentes, contra nosso
senado levantaram, todas elas de causa inexistente, no poderiam nunca
ser motivo de ddiva to franca. Bem; e agora? Como essa multido de
vista curta digere a cortesia do senado? Que traduzam seus atos os
discursos em tudo iguais queles: "Exigimos; somos a grande massa, tendo
sido por puro medo que eles concederam tudo quanto pedimos". Rebaixamos,
assim, a natureza do mandato, justificando que a canalha o nome de medo
d ao que  solicitude. Dentro de pouco, as portas do senado sero
foradas e no seu recinto os corvos bicaro as prprias guias. MENNIO
- Vamos; j chega. BRUTO - Chega com excesso. CORIOLANO - No, ouvi o
que falta. Quanto as juras constituem, humanas e divinas, sele agora o
meu fecho. Esse o governo de dois poderes, no qual uma parte sente
desprezo, com razo, da outra, sendo por ela, sem nenhum motivo, coberta
s de injrias; em que os ttulos, a experincia, a nobreza no
conseguem decidir coisa alguma sem que alcancem o sim ou o no da
estupidez dos muitos: acabar das reais necessidades se descuidando,
para ver- se presa da inconstante fraqueza. Quando todos os propsitos,
todos, morrem frustros, tudo passa a ser feito sem propsito. Por isso
vos conjuro, vs que menos medrosos quereis ser do que discretos; que
amais os fundamentos da repblica bastantemente para no quererdes v-
los modificados; que uma vida com nobreza antepondes  existncia
prolongada e sem cor, e arrscareis aplicar um remdio perigoso num
corpo que, sem isso, perecera: j j tirai  multido a lngua; que ela
no lamba o mel que  seu veneno. Vosso rebaixamento deixa em postas o
so juzo e priva o alto governo da inviolabilidade, indispensvel, que
nenhum bem agora fazer pode pelo mal que o dirige. 

46 

BRUTO - Falou muito. SICNIO - Falou como traidor, devendo a pena
receber dos traidores. CORIOLANO - Grande tolo, que o desprezo te
esmague! Que  que pode fazer o povo com tribunos calvos? Porque depende
deles, nega toda reverncia ao poder mais elevado. Foi uma rebelio que
os elegeu, quando a coao  lei, no o direito. Denominai, numa hora
mais propcia, direito o que  direito e ao p da rua atirai seu poder.
BRUTO - Traio patente! SICMO - Isto  ser cnsul? Nunca! BRUTO - Ol!
Edis! Venham logo prend- lo. 

(Entra um edil.) 

SICNIO - Chama o povo, 

(Sai o edil.) 

em cujo nome eu te detenho, como inovador traioeiro e da repblica
declarado inimigo. Ordeno- o; segue- me e entrega- te  justia.
CORIOLANO - Velho bode, para trs! SENADORES - De cauo lhe serviremos.
COMNIO - Velho, abaixai a mo! CORIOLANO - Sai, coisa podre! do
contrrio, farei saltar- te os ossos de dentro dessa roupa. SICNIO -
Cidados! Socorro, cidados!

(Entram outros edis, com um magote de cidados.) 

MENNIO - De ambos os lados, mais reflexo. SICNIO - Ali podeis ver o
homem que quisera deixar- vos sem direitos. BRUTO- Edis, prendei- o!
CIDADOS - Abaixo! Abaixo! SENADORES - Armas! Armas! Armas! 

(Correm todos, aos gritos, para o lado de Coriolano.) 

Tribunos! Cidados! Patrcios! Oh! Sicnio! Bruto! Coriolano! Amigos!
Paz, paz! Detende- vos! Silncio! Paz! MENNIO - Que se vai dar? Estou
quase sem flego. Estamos na iminncia de um desastre. No sei falar...
Tribunos populares, vs a... Coriolano, mais pacincia! Bom Sicnio,
falai! SICNIO - Povo, escutai- me! CIDADOS - Nosso tribuno vai falar!
Ouamo- lo! Paz! Silncio!... Falai, falai, falai! SICNIO - Arriscados
estais a perder todas as vossas liberdades; desejara Mrcio vo- las
tirar, Mrcio que cnsul acabais de eleger. MENNIO - Ora, que coisa!
Isso  aumentar, no extinguir a chama. PRIMEIRO SENADOR - A cidade
destruir, arrasar tudo. SICNIO - E que  a cidade, se no for o povo?
CIDADOS - Sim,  certo: a cidade  o prprio povo. BRUTO - Fomos
eleitos seus representantes pelo voto geral.

47 

CIDADOS - E nesse posto continuareis. MENNIO -  o que parece, mesmo.
COMNIO - Esse  o caminho de arrasar os muros, de pr o teto rente aos
alicerces e enterrar quanto ainda se acha em ordem sob um monto de
runas. SICNIO - Ser a morte para isso a pena certa. BRUTO - Ou damos
prova de nossa autoridade, ou perd- la- emos definitivamente.
Declaramos, pois, em nome do povo, cuja fora nos elegeu representantes
dele, que Caio  digno de imediata morte. SICNIO - Segurai- o,
portanto, e o levai logo para a rocha Tarpia, de onde seja precipitado
e morto. BRUTO - Edis, prendei- o! CIDADOS - Mrcio, entrega- te!
MENNIO - Ouvi- me num palavra. Conjuro- vos, tribuno: uma palavra,
tosomente.

EDIS - Silncio! Paz! MENNIO - Agora sede o que pareceis: amigos certos
de vossa ptria e procedei com calma para o conserto do que por
violncia pretendeis corrigir. BRUTO - Senhor, processos frios como
esse, que com mui prudentes recursos se assemelham, so veneno quando o
mal  violento. - Segurai- o! Para a rocha arrastai- o! CORIOLANO - No;
primeiro me tiraro a vida.

(Arranca a espada.) 

Alguns dos vossos J me viram lutar. Vinde e em vs prprios
experimentai o que fazer me vistes. MENNIO - Abaixai essa espada!
Retirai- vos, tribunos, um momento. BRUTO - Segurai- o! MENNIO -
Socorrei Mrcio! - Aqui! Socorrei Mrcio. vs da nobreza! Aqui, moos e
velhos! CIDADOS - Abaixo Coriolano! Abaixo! Abaixo!

(No tumulto os tribunos, os edis e o povo so repelidos.) 

MENNIO - J! retirai- vos para vossas casas; se no, tudo ir mal.
SEGUNDO SENADOR - Sim, retirai- vos! CORIOLANO - Fiquemos firmes, pois 
igual o nmero de amigos e inimigos. MENNIO - Chegaremos a esse ponto?
PRIMEIRO SENADOR - Que os deuses no o permitam! Peo- te, nobre amigo,
por obsquio, vai para casa e deixa a nosso cargo o tratamento disto.
MENNIO - Di- nos muito no poderdes pensar vs mesmo a chaga. Por
favor, retirai- vos. COMNIO - Vinde, vinde, meu senhor! CORIOLANO -
Desejara que eles fossem brbaros - como o so, embora tenham tido todos
em Roma a manjedoura - no romanos - o que no so, 

48 

realmente, muito embora paridos tenham sido todos junto ao porto do
Capitlio... MENNIO - Retirai- vos, sem pr em vossa boca tanta clera
nobre. Ainda veremos o dia da vingana. CORIOLANO - Em campo liso
bateria quarenta desses biltres. MENNIO - Eu prprio me incumbira de um
par deles, os mais valentes, sim, os dois tribunos. COMNIO - Mas a
desproporo agora  enorme; passa da conta, merecendo o nome de loucura
a coragem que se oponha a um edifcio que a cair esteja. No quereis ir
antes que a corja volte? Sua raiva parece- se com a gua represada, que
vence os altos diques que venc- la soam. MENMO - Ide, peo- vos.
Quero ver se ainda d meu velho esprito para tratar com quem nenhum
possui.  indiferente a cor do pano usado como remendo. COMNIO - Vamos,
vamos logo.

(Saem Coriolano, Comnio e outros.) 

PRIMEIRO PATRCIO - Este homem estragou a prpria sorte. MENNIO - De
natural  em demasia nobre para este mundo. No adularia Netuno sob
ameaa do tridente, nem Jove pela fora de seu raio. A boca  o corao;
ao que se forja dentro do peito a lngua d sada. Chega a esquecer,
quando encolerizado, que o nome ouviu da morte em qualquer tempo. 

(Barulho dentro.) 

Vamos ter coisa. SEGUNDO PATRCIO - Fossem para as camas! MENNIO - No
Tibre  que os quisera. Com os demnios! Mas por que causa no falou com
modos?

(Voltam Bruto e Sicnio, com a ral.) 

SICNIO - Onde est aquela vbora que Roma quisera despovoar para
tornar- se todo o mundo ele s? MENNIO - Dignos tribunos... SICNIO -
Com rigorosas mos ser atirado j da rocha Tarpia. Resistiu  lei; por
isso a lei desprezar deve quaisquer formalidades e entreg- lo ao rigor
do poder do prprio povo por ele desprezado tanto e tanto. PRIMEIRO
CIDADO - Fique ele, assim, sabendo que os tribunos so a cabea do povo
e ns, seus braos. CIDADOS - Oh! vai ficar sabendo. MENNIO - Mas
senhores... SICNTO - Calai- vos! MENNIO - No griteis "Avana!" quando
caar s podereis com direitos em tudo relativos. SICNIO - Por que
causa, meu senhor, o ajudastes nesta fuga? 

49 

MENNIO - Ouvi- me um pouco. Assim como conheo todo o valor do cnsul,
tambm posso apontar suas faltas. SICNIO - Cnsul? Que cnsul! MENNIO
- O cnsul Coriolano. BRUTO - Cnsul, ele? CIDADOS - No, no, no,
no! MENNIO - Se com o consentimento dos tribunos e o vosso, meu bom
povo, eu conseguisse dizer- vos uma ou duas palavrinhas, quando muito
algum tempo perdereis. SICNIO - Ento sede sucinto, porque estamos
determinados a matar aquele viperino traidor. Grande perigo fora
expuls- lo; nossa morte certa, conserv- lo entre ns. Ficou assentado,
por isso, que esta tarde a morrer venha. MENNIO - Os deuses no
permitam que a famosa Roma, cujo alto apreo por seus filhos meritrios
impresso est no livro do grande Jove, me desnaturada se revele,
comendo os prprios filhos. SICNIO -  doena que precisa ser cortada
pela raiz. MENNIO - Oh no!  um membro doente, to- somente. Cort- lo
 perigoso; cur- lo  fcil. Que fez ele a Roma que s merea a morte?
Ter matado nossos imigos? Quando perdeu sangue - que ultrapassa de
muitas onas, posso vos afirmar, quanto ele ainda possua - derramado foi
todo pela ptria. Se sua ptria agora derramasse o pouco que lhe resta,
para todos ns que nisso tivermos parte, ou formos simples espectadores,
fora infmia que duraria at acabar o mundo. SICNIO - Pura tolice,
tudo. BRUTO - E sem propsito. Quando ele amou a ptria, esta o exaltou.
MENNIO - Se nosso p gangrena, deixaremos de estimar seus servios
anteriores? BRUTO - Basta de palavrrio. Ide busc- lo em sua prpria
casa, de l mesmo tirando- o  fora, para que essa doena, que pega
facilmente, no se alastre. MENNIO - Uma palavra, ainda; uma palavra!
Essa fria de ps de tigre, quando perceber os prejuzos resultantes da
precipitao, h de, mui tarde, desejar ter nos ps libras de chumbo.
Prossegui desse modo, para verdes que ele  muito estimado - levantarem-
se os partidos em luta e ser saqueada a grande Roma pelos prprios
filhos. BRUTO - Se tal se desse... SICNIO - Para que falardes? J no
ficamos conhecendo a sua desobedincia? No nos desafiou? No bateu nos
edis? Sigamos logo. MENNIO - Refleti que ele criado foi nas guerras
desde que pde manejar a espada, mal iniciado foi nos artifcios da
linguagem polida, misturando sem distino a boa e a m farinha. Se me
derdes licena, irei busc- lo, para que 

50 

ele responda legalmente, em paz, correndo os riscos e perigos que ele
prprio criou. PRIMEIRO SENADOR - Nobres tribunos, esse  o caminho
humano; o outro processo por demais sanguinrio se revela, no
conhecendo o fim seu prprio incio. SICNIO - Ireis ficar, ento, nobre
Mennio, como oficial do povo. Abaixai vossas armas, meus mestres.
BRUTO- No vos recolhais. SICNIO - Ide j para a praa do mercado.

(A Mennio.) 

L vos esperaremos; mas no caso de no levardes Mrcio, em nosso plano
prosseguiremos. MENMO - No; hei de lev- lo. 

(Aos senadores.) 

Desejo que me acompanheis; foroso ser que venha; do contrrio, graves
sero as conseqncias. PRIMEIRO SENADOR - Ento vamos. 

(Saem.) 

Cena II 

O mesmo. Um quarto em casa de Coriolano. Entram Coriolano e patrcios. 

CORIOLANO - Ainda mesmo que todos eles venham dilacerar- me a orelha, ou
ameaar- me de morte pela roda ou esquartejado por cavalos selvagens;
ainda mesmo que dez colinas empilhadas ponham sobre a rocha Tarpia,
porque a queda se venha a dar sem que a viso a alcance: no modificarei
minha atitude. PRIMEIRO PATRCIO - Tanto mais nobre ela ser em tudo.
CORIOLANO - O que me admira  ver que no concorda comigo minha me
sobre este ponto, ela que sempre lhes chamou escravos de roupa de
algodo, coisinhas feitas para o comrcio de vintm, apenas, e para nas
reunies aparecerem de cabea despida, boca aberta, sem dizerem palavra,
revelando grande espanto, quando um do meu calibre se ala para falar de
paz e guerra.

(Entra Volmnia.) 

Falo de vs. Por que desejareis ver- me mais brando? Preferis que eu
seja infiel  minha prpria natureza? Fora melhor quererdes que meu
prprio papel eu represente. VOLMNIA - Oh homem! homem! homem! Quisera
que primeiro o posto tivsseis alcanado, embora visseis depois a
malgast- lo. CORIOLANO - Pouco importa. VOLMNIA - Podereis ter sido
inteiramente o homem que sois, sem tanto empenho em s- lo. Vossas
disposies teriam vindo a encontrar menos 

51 

bices, no caso de no terdes mostrado aos adversrios quais elas eram
antes que eles fora pudessem ter para contradizer- vos. CORIOLANO -
Ora! forca para eles. VOLMNIA - E fogueira. 

(Entram Mennio e vrios senadores.) 

MENNIO - Vamos, vamos! Vs fostes muito brusco, muito brusco,
realmente.  necessrio virdes conosco, para endireitardes o que foi
feito. PRIMEIRO SENADOR - No h outro meio. Caso no concordeis com
isso, nossa boa cidade ficar cindida em duas partes, vindo a destruir-
se. VOLMNIA - Sede cordato, peo- vos. Possuo tambm um corao to
impetuoso quanto o vosso. Contudo, tenho crebro que sabe dirigir a
estuosa clera para vantagem prpria. MENNIO - Muito certo, nobre dama!
Antes que ele se curvasse perante a turba, se violenta crise do tempo
no pedisse esse remdio, para que todo o Estado a sarar viesse,
envergaria eu prprio minhas armas que mal sustentar posso. CORIOLANO -
Que  preciso que eu faa? MENNIO - Ir para junto dos tribunos.
CORIOLANO - Muito bem! Muito bem! E depois disso? MENNIO - Retratar-
vos de tudo o que dissestes. CORIOLANO - Como! Perante o povo? Se nem
mesmo perante os deuses poderei faz- lo serei forado agora a retratar-
me? VOLMNIA - Sois muito rigoroso. Muito embora grande nobreza em tudo
revelsseis, fala a necessidade. No dissestes uma vez que na guerra a
astcia e a honra, como grandes amigas, de mos dadas andam todos os
dias? Concedei- me esse ponto e dizei- me em que uma delas pode perder
na paz, para que tenha de separar- se da outra? CORIOLANO - Basta!
Basta! MENNIO - Excelente questo. VOLMNIA - Se em vossas guerras for
honra parecer o que no sois - o que, para ganhar, vos manda a astcia -
em que ser menor ou deprimente as duas amizades no fazerem na paz como
na guerra, se isso exigem ambas com o mesmo empenho? CORIOLANO - Por que
causa sobre isso insistis tanto? VOLMNIA - Porque importa muito
falardes hoje para o povo, no segundo a experincia vos ditar, nem como
o corao vos aconselha, mas com palavras que s tenham curso
superficial na lngua, pensamentos bastardos e fraseado sem nenhuma
relao com a lealdade do imo peito. Ora, isso vos desonra tanto como
tomar um burgo com palavras brandas sem as quais vos vereis obrigado a
confiar na fortuna sempre mvel e a arriscar muito sangue. Eu
dissimularia a natureza, quando a prpria fortuna e a dos amigos em
perigo o exigissem de minha honra.  assim que eu penso, vossa esposa, o
filho, todos os senadores, nossos nobres. Mas preferis mostrar aos 

52 

farrapentos como franzis o cenho, a um sorrisinho gastar com eles, para
que a herdar visseis o que, de outra maneira, se perdera. MENNIO -
Nobre senhora! Vamos! Vamos logo! Falai direito para remediardes no
somente o presente perigoso, como os males passados. VOLMNIA - Sim, meu
filho, dirige- te para eles com teu gorro na mo, assim, levando- o bem
 frente, e deixa que teu joelho beije a terra, porque nesses assuntos a
eloqncia melhor  o gesto; muito mais instrudo  o olho do ignorante
do que o ouvido; inclina a fronte assim, que muitas vezes o altivo
corao te repreendeu, e to humilde a deixa como a amora madura que mal
pede ser tocada. Ou ento lhes dize que s soldado deles, e por teres
crescido nas campanhas desconheces os meios delicados - confessars
tambm - mais condizentes com a atitude que fora de exigir- se de quem
implora o bom favor de todos: mas que ao feitio deles, em verdade,
pretendes adaptar- te quanto a tua pessoa e as energias permitirem.
MENNIO - Fazei apenas quanto ela aconselha e tereis ganho o corao de
todos, pois a perdoar to prontos esto, sempre, quando solicitados,
como fceis se mostram de palavras sem propsito. VOLMNIA - Vamos; s
comedido, por obsquio, embora eu saiba que preferirias ir em
perseguio de teu imigo num abismo de chamas, a adullo num relvado
macio. A vem Comnio. 

(Entra Comnio.) 

COMNIO - Venho da praa pblica;  preciso, senhor, que reforceis
vossos adeptos ou que cuideis de vossa salvao pela moderao ou pela
ausncia. A indignao  grande. MENNIO - Dirigi- lhes palavras
amigveis. COMNIO - Suficientes podero ser, tenho certeza disso, se o
gnio ele dobrar nesse sentido. VOLMNIA - H de faz- lo e de bom
grado. Vamos! dizei que assim quereis e parti logo. CORIOLANO - Ser
preciso, ento, mostrar a todos a cabea raspada? Com fingida lngua
imporei ao corao altivo uma mentira dessas? Bem; que seja. Mas se em
perigo apenas estivesse este terro, o molde deste Mrcio, antes disso o
teriam reduzido a poeira fina e a arremessado aos ventos. Bem; para a
praa pblica! Impusestes- me um papel que jamais ser possvel
representar direito. COMNIO - Vamos, vamos; serviremos de ponto.
VOLMNIA - Eu te suplico, meu caro filho: tens asseverado que ficaste
guerreiro to- somente pelos meus elogios. Ora cumpre representares um
papel indito. CORIOLANO - Bem; represent- lo- ei. Fora, nativa
disposio! De mim se aposse agora o esprito de alguma prostituta.
Minha goela guerreira, que fazia coro com meu tambor, torne- se cnula
to fina como a voz de eunuco ou virgem, quando no bero embala as
criancinhas. Que em minhas faces 

53 

fixe moradia o riso dos poltres; tape as janelas de meus olhos o choro
de meninos; que em minha boca a lngua de mendigo se ponha em movimento
e que estes joelhos armados, nunca afeitos a dobrarem- se seno para
montar, ora se curvem como os do pobre que recebe esmola! No! No farei
tal coisa, que no posso deixar de honrar minha verdade intrnseca, o
que faria se, pela atitude do corpo,  alma ensinasse tal baixeza.
VOLMNIA - Como queiras, ento; maior desonra  para mim pedir- te do
que mesmo dirigires- te ao povo. Venha abaixo tudo quanto h, que 
prefervel dares a sentir a tua me teu grande orgulho a faz- la
recear- se, em qualquer tempo, de tua perigosa teimosia, pois rio- me da
morte com tanto nimo como tu prprio. Faze o que quiseres; teu herosmo
vem de mim; mamaste- o com meu leite; porm todo esse orgulho s a ti
mesmo deves. CORIOLANO - Por obsquio, me, acalmai- vos. Vou para o
mercado; j decidi. Parai com esses ralhos. Pretendo escamotear o amor
de todos, o corao furtar- lhes, retornando adorado por todos os
artfices de nossa Roma. Vede: j vou indo. Dai recomendaes a minha
esposa. Voltarei como cnsul; do contrrio, nunca mais confiarei em
minha lngua no que  bajulao disser respeito. VOLMNIA - Fazei o que
quiserdes.

(Sai.) 

COMNIO - Vamos logo! Os tribunos j esto  vossa espera. Disponde- vos
a lhes falar com calma, pois em reservas, dizem todos, tm acusaes
mais forte do que quantas j vos houvessem feito. MENNIO -
"Brandamente",  a senha de hoje. CORIOLANO - Vamos, por obsquio. Que
inventem contra mim o que quiserem, que minha honra ser toda a
resposta. MENNIO - Com brandura, porm. CORIOLANO - Sim, com brandura.
Que seja: com brandura! 

(Saem.) 

Cena III 

O mesmo. O foro. Entram Sicnio e Bruto. 

BRUTO - Sobre esse ponto carregai com fora: que ele aspira ao poder da
tirania. No caso de escapar- nos, acusai- o de odiar o povo e de no
ter, at hoje, feito a distribuio do grande esplio conquistado na
guerra dos antates.

(Entra um edil.) 

Como : vem ou no vem? EDIL - J est chegando. BRUTO - E quem agora
vem com ele? EDIL - O velho Mennio e os senadores que costumam
satisfaz- lo em tudo.

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SICNTO - Conseguistes organizar a lista, por cabea, das vozes que do
nosso lado se acham? EDIL - Consegui; est pronta. SICNIO -
Organizaste- las segundo as tribos? EDIL - Sim. SICINTO - Ento,
depressa convocai todo o povo. No momento em que me ouvirem declarar:
"De acordo com o direito e a vontade dos comuns, ser desta maneira",
quer se trate de morte, multa ou banimento, todos, se eu disser: multa!
gritar devem "Multa" se: morte! gritem "Morte", persistindo nos velhos
privilgios e na fora da verdade da causa. EDIL - Hei de inform- los
do que dizeis. BRUTO - E desde que tiverem comeado a gritar, no se
detenham; com confuso alarido exijam pronta execuo de quanto
resolvermos, seja qual for a pena. EDIL - Muito bem. SICNIO - Fortes os
conservai e sempre atentos ao sinal que teremos de fazer- lhes. BRUTO -
Ponde pressa em tudo isso. 

(Sai o edil.) 

Tratai logo de deix- lo colrico. Ele se acha acostumado a dominar em
tudo, afirmando o valor na resistncia. Uma vez alterado, no se deixa
refrear pela prudncia e fala tudo que tem no corao, s parecendo que
se empenha, com nossa interferncia, em quebrar o pescoo. SICNIO - A
vem ele.

(Entram Coriolano, Mennio, Comnio, senadores e patrcios.) 

MENNIO - Calma,  s o que vos peo. CORIOLANO - Sim, tal como o
servente que por ntima moedinha engole pencas de "velhacos" que os
altos deuses sempre amparem Roma, as cadeiras provejam da justia com
pessoas de bem, e entre ns todos a concrdia semeiem. Que com cenas de
paz apinhem sempre nossos templos, no as ruas com mostras belicosas.
PRIMEIRO SENADOR - Amm. MENNIO - Um nobre voto.

(Volta o edil, seguido de cidados.) 

SICNIO - Aproximai- vos, povo! EDIL - Ouvi os tribunos! Prestai toda
ateno. Silncio! digo. CORIOLANO - Permiti que eu comece. AMBOS OS
TRIBUNOS - Bem; falai. Silncio, a! CORIOLANO - Acabaro, acaso, minhas
acusaes com essas de hoje? SICNIO - Pergunto se vos submeteis ao voto
do povo, se aceitais seus magistrados e concordais em que se instaure
pronta sindicncia com relao s faltas que imputadas vos forem.
CORIOLANO - Sim, concordo. 

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MENNIO - Cidados! Ele disse que concorda. Considerai agora seus
servios durante a guerra a refleti nas marcas que no corpo ele traz e
que parecem sepulturas num santo cemitrio. CORIOLANO - Pequenos
arranhes de espinho, apenas, esfoladuras que provocam riso. MENNIO -
Alm do mais, consideremos que ele no fala como cidado, a todos qual
soldado se mostra, no devendo, portanto, serem tidos seus acentos
speros como fala maliciosa. mas, como disse, prpria de um soldado, sem
que possa ofender- vos. COMNIO - Bem; j basta. CORIOLANO - Por que
motivo, tendo eu sido eleito por unanimidade para o posto de cnsul, na
mesma hora sofro a afronta de minha indicao ver anulada? SICNIO - A
vs  que compete responder- nos. CORIOLANO - Falai;  certo. SICNIO -
Ns vos acusamos de tentar suprimir de Roma todos os postos constitudos
e de ao mando tirnico aspirar, assim tornando- vos traidor ao povo.
CORIOLANO - Como assim! Traidor? MENNIO - Com mais calma. Lembrai- vos
da promessa. CORIOLANO - Que as chamas do mais baixo inferno envolvam de
uma vez esse povo! Eu, insultado de traidor, e por ti, tribuno infame!
Embora nesses olhos se assentassem vinte mil mortes e em tuas mos
crispadas outros tantos milhes, em tua lngua caluniosa os dois nmeros
somados, dir- te- ia "Mentes!" com uma voz to livre como quando oro aos
deuses. SICNIO - Observastes o que ele disse, povo? C1DADOS - Para a
rocha! Para a rocha com ele! SICNIO - No! Silncio! No precisamos de
matria nova para contra ele fazer carga. Tudo quanto o vistes fazer e
dele ouvistes: de insultos vos cobrir, bater em vossos representantes,
pela fora bruta s leis se opor, desafiar agora a autoridade que julg-
lo iria... Este atentado, por si s, to grande, merece a pena de mais
dura morte. BRUTO - Mas,  vista de ter servido Roma... CORIOLANO - Por
que tagarelar de meus servios? BRUTO - Digo o que sei. CORIOLANO -
Quem? Vs? MENNIO - Essa  a promessa que a vossa me fizestes? COMNIO
- Por obsquio, ficai sabendo... CORIOLANO - No! No quero coisa
nenhuma. Eles que me condenem  alcantilada morte da Tarpia, ao
vagabundo exlio, a me arrancarem aos poucos toda pele, a definhar- me
lentamente no crcere, s tendo por alimento um gro em cada dia: no
comprarei nunca o favor deles  custa

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de um s termo delicado, nem a minha coragem eu refreara por todos seus
presentes, muito embora s "Bom dia" dizer- lhes me custasse. SICNIO -
Tendo- se em vista que por vrias vezes - quanto dele, somente, dependia
- conspirou contra o povo, procurando meios para priv- lo dos poderes,
chegando a se valer recentemente da violncia culposa, o que foi feito
no s em frente da justia augusta, mas at na dos prprios servidores
que incumbidos esto de ministr- la: em nome, assim, do povo e dos
poderes que nos so inerentes, ns, tribunos, o declararmos, a partir de
agora banido da cidade, no podendo, sob pena de jogado ser a rocha
Tarpia, nunca as portas transpor de Roma. Em nome, pois, do povo,
repitoo: assim ser! CIDADOS - Assim ser! Assim ser! Que parta!
COMNIO - Ouvi- me, mestres e comuns amigos... SICNIO - J foi dada a
sentena; agora  tarde. COMNIO - Permiti que vos fale. J fui cnsul,
podendo vos mostrar no corpo as marcas dos golpes dos imigos da cidade.
Dedico ao bem- estar de minha ptria mais respeitoso amor e mais
profundo, mais terno e sacrossanto que a mim mesmo, minha esposa
estimada, seus rebentos, tesouros de meus flancos. Vou dizer- vos...
SICNIO - J sabemos qual seja vosso intento. Vamos! Que ireis dizer?
BRUTO - J no h nada para dizer, seno que est banido como imigo do
povo e da cidade. Assim ser! CIDADOS - Assim ser! Assim ser!
CORIOLANO - Vil matilha de ces, cujo mau hlito odeio como o pntano
empestado, e cuja simpatia estimo tanto quanto o cadver insepulto e
podre que deixa o ar corrompido e irrespirvel: sou eu que vos desterro,
e aqui vos deixo com vossa inconsistncia. Que o mais fraco rumor o
corao vos deixe inquieto, e que s com moverem seus penachos vos
insuflem terror os inimigos. Ficai com fora para banir todos os vossos
defensores, at o dia em que vossa ignorncia, que s entende quanto
venha a sentir, tiver limpado com todos, menos vs - os inimigos de vs
mesmos - alfim vos entregando como fracos escravos a algum povo que vos
conquiste sem fazer esforo. Por vossa causa desprezando Roma dou- lhe
as costas. O mundo  muito grande.

(Saem Coriolano, Comnio, Mennio, senadores e patrcios.) 

EDIL - O inimigo do povo j partiu! CIDADOS - Foi- se nosso inimigo!
Est banido! Hu! Hu! 

(Todos prorrompem em aclamaes e atiram os gorros para o alto.) 

SICNIO - Acompanhem- no todos at  porta, como ele fez convosco,
demonstrando- lhe o mximo desprezo. Atormentai- o, que ele bem o
merece. Mandai uma guarda nos escoltar pela cidade. 

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CIDADOS - Vamos! Acompanhemo- lo at  porta! Vamos todos! Os deuses
nos conservem sempre os nobres tribunos! Vamos todos! 

(Saem.) 

ATO IV Cena I 

Roma. Em frente da porta da cidade. Entram Coriolano, Volmnia,
Verglia, Mennio, Comnio e muitos jovens patrcios. 

CORIOLANO - Vamos, vamos! parai com essas lgrimas. Apenas uma despedida
rpida. Empurra- me o animal de mil cabeas. Ora, me! Onde est vossa
coragem? Costumveis dizer que a adversidade pe  prova os espritos;
que os homens comuns suportam bem as ocorrncias mais vulgares; que
estando o mar sereno, bons veleiros so todos os navios; mas que quando
a fortuna assesta os golpes com fora, para os suportar com calma faz-
se mister de nobre habilidade. Muitas e muitas vezes carregastesme de
regras que invencvel deixariam o corao que viesse a assimil- las.
VERGLIA - Oh cus! Oh cus! CORIOLANO - No, por favor, querida...
VOLMNIA - Que a peste rubra agora ataque todos os artesos e extinga
seus ofcios. CORIOLANO - T, t, t! Tornar- me- ei querido deles.
quando a sentir vierem minha falta. Assim no, me! Mostrai aquele
esprito que a dizer vos levava tantas vezes que se tivsseis sido
esposa de Hrcules tereis feito seis de seus trabalhos e muito suor
poupado a vosso esposo. Adeus, Comnio! Levantai a fronte. Adeus,
esposa! Minha me, adeus! Tudo acabar bem. Meu fiel e velho Mennio,
mais amargas so tuas lgrimas do que as de um moo e, assim, mais
venenosas para teus olhos. Meu antigo chefe, severo j te tenho visto, e
muitas vezes j contemplaste cenas duras, de deixarem de pedra o
corao: explica a estas mulheres pesarosas que to pueril  lastimar os
golpes inevitveis como zombar deles. Minha me, bem sabeis que meus
perigos sempre grande alegria vos causaram; podeis crer firmemente que,
partindo sozinho como parto, solitrio drago vou parecer que de seu
charco mais medo infunde e assanha comentrios do que se deixa ver. Ou
vosso filho se elevar de muito sobre a plebe, ou ser preso pelas
armadilhas e laos da traio. VOLMNIA - Meu primognito, para onde
irs? Leva at certo ponto contigo o bom Comnio; toma alguma deciso
quanto ao teu itinerrio, sem te expores a todos os acasos que te possam
surgir na estrada incerta. CORIOLANO - Oh deuses! COMNIO - Ficarei um
ms contigo; combinaremos o retiro juntos, para que possas receber
notcias de ns e ns de ti. Assim, no caso de nos lanar o tempo algum
pretexto para te repatriar, ns no teremos necessidade de

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correr o mundo to vasto em busca de uma s pessoa, sem que venhamos a
perder o ensejo que sempre se arrefece, quando ausente se acha o
necessitado. CORIOLANO - Adeus a todos. Tens muitos anos sobre ti e te
achas por demais carregado das orgias da guerra para ires correr mundo
com quem ainda est sem pisaduras. Vem at  porta; vem, querida esposa,
minha adorada me, caros amigos de nobre toque! Quando alm dos muros eu
estiver, dizei- me adeus sorrindo. Vamos, vamos, vos peo. Enquanto
firme eu estiver na terra, haveis de novas ouvir a meu respeito, porm
nada que no seja tal como eu antes era. MENNIO - Nada mais digno ouviu
orelha alguma. Paremos de chorar. Ah! se eu pudesse tirar das velhas
pernas e dos braos pelo menos sete anos, pelos deuses bondosos, passo a
passo te seguira. CORIOLANO - D- me a mo. Vamos! Vamos! 

(Saem.) 

Cena II 

O mesmo. Uma rua perto da porta da cidade. Entram Sicnio, Bruto e um
edil.

SICNIO - Mandai que se recolham; j partiu. Vamos parar aqui, que os
nobres se acham irritados conosco, pois bem vimos como todos ficaram de
seu lado. BRUTO - Tendo provado nossa fora, vamos mostrar mais
humildade aps o feito do que durante a ao. SICNIO - Mandai que todos
vo para suas casas. O inimigo mximo, lhes direis, j foi embora, tendo
eles recobrado a fora antiga. BRUTO - Mandai que se recolham para casa.


(Sai o edil.) (Entram Volmnia, Verglia e Mennio.) 

A vem a me dele. SICNIO - Retiremo- nos. BRUTO - Por que razo?
SICNIO - Dizem que ficou louca. BRUTO - J nos viu; continuemos o
caminho. VOLMNIA - Oh! chegais muito a tempo. Recompense- vos os deuses
a afeio com seus flagelos acumulados. MENNIO - Paz! Falai mais baixo.
VOLMNIA - No fossem minhas lgrimas, haveis de ouvir- me... No!
Tereis de ouvir um pouco.

(A Bruto.) 

J quereis ir embora? 

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VERGLIA (A Sicnio) -  necessrio que tambm vs fiqueis. Ah! se eu
pudesse dizer a mesma coisa a meu marido! SICNIO - Sois ser humano,
acaso? VOLMNIA - Sim, idiota; ser vergonha s- lo? Que cretino! No
foi homem meu pai? E tu, que espcie de raposa sers, para banires de
Roma o heri que a seu favor mais golpes dera do que palavras j
disseste? SICNIO - Oh cu bendito! VOLMNIA - Mais gloriosos golpes
pela causa de Roma do que em todas as sensatas palavras de tua vida. Vou
dizer- te... No; vai...  bom que fiques. Quisera que meu filho se
encontrasse na Arbia, e diante dele tua tribo  distncia de sua boa
espada. SICNIO - Bem; e depois? VERGLIA - Depois? Extinguiria tua
posteridade. VOLMNIA - Sim, bastardos e tudo o mais. Quantas feridas
ele recebeu pela ptria! MENNIO - Vamos! Vamos! SICNIO - Quisera que
ele houvesse continuado como de incio, sem soltar o lao glorioso que o
prendia  sua ptria. BRUTO - Eu tambm. VOLMNIA - Eu tambm? Gatos!
Todos vs apreciar podeis seu grande mrito como eu penetrar posso nos
mistrios que o cu no quer que a terra a saber venha. BRUTO -
Partamos, por favor. VOLMNIA - Sim, homens, ide! Realizastes um ato de
bravura! Mas antes de vos irdes ouvi isto: Como ultrapassa o Capitlio
as casas mais humildes de Roma, assim, meu filho que foi por vs banido
- o esposo desta senhora que aqui vedes - vos excede. Sim, a vs todos.
BRUTO - Bem; vamos deixar- vos. SICNIO - Por que ficarmos tanto tempo
imveis, servindo de alvo para as invectivas de uma pessoa que perdeu o
juzo? VOLMNIA - Levai as minhas preces. 

(Saem os tribunos.) 

Desejara que nada mais para fazer tivessem os deuses a no ser dar
cumprimento s minhas maldies. Se os encontrasse uma vez, pelo menos,
cada dia, aliviaria o corao do peso que tanto o oprime. MENNIO -
Destes- lhes de rijo. E com razo, por minha f, vos digo. Vamos cear.
VOLMNIA - Meu alimento  a clera; ceio a mim mesma; e, assim, morro de
fome, de tanto me fartar. Vamos embora. Parai com esses pios abafados e
lamentai- vos tal como eu: colrica, como outra Juno! Vamos! vamos!
vamos! MENNIO - Ora! ora! 

(Saem.) 

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Cena III 

Estrada real entre Roma e ntio. Um romano e um volsco se encontram. 

ROMANO - Conheo- vos, senhor; como vs tambm me conheceis. Se no me
engano, chamais- vos Adriano. VOLSCO -  isso mesmo, senhor. Mas, por
minha f, no me recordo de vs. ROMANO - Sou de Roma; mas, como vs,
trabalho contra os romanos. Reconheceis- me agora? VOLSCO - Nicanor,
no? ROMANO - Ele mesmo, senhor. VOLSCO - Tnheis mais barba, quando vos
vi pela ltima vez; mas, pela voz, reavivam- se- me na memria vossos
traos fisionmicos. Que novidades h em Roma? Recebi do governo volsco
a incumbncia de procurar- vos l; poupastes- me um dia de caminho.
ROMANO - Em Roma houve insurreies extraordinrias: o povo contra os
senadores, patrcios e nobres. VOLSCO - Houve? Ento j terminaram?
Nossos governantes no pensam desse modo; esto promovendo enormes
preparativos blicos, esperando surpreender os romanos no maior ardor de
suas dissenes. ROMANO - As labaredas mais fortes j passaram; mas a
menor coisa poder reaviv- las. Porque os nobres se apaixonaram a tal
ponto com o banimento de Coriolano, que se encontram maduramente
dispostosa retirar todo o poder do povo e privar este para sempre de
seus tribunos.  uma brasa debaixo de cinza, posso afianar- vos, que se
acha quase no ponto de reacender- se com violncia. VOLSCO - Coriolano,
banido? ROMANO - Banido, senhor. VOLSCO - Com essa notcia, Nicanor,
sereis bem- vindo. ROMANO - A ocasio lhes  propcia. Tenho ouvido
dizer que a melhor hora para seduzir uma mulher  quando ela briga com o
marido. Vosso nobre Tulo Aufdio vai sobressair- se nestas guerras, uma
vez que seu grande adversrio. Coriolano, ficou sem funo em sua
ptria. VOLSCO - No tem por onde escolher. Considero- me feliz, por vos
ter acidentalmente encontrado. Convosco termina minha misso; com muito
prazer vos acompanharei at vossa casa. ROMANO - At  hora da ceia vos
contarei coisas mirficas dos romanos, tendentes todas para a felicidade
de seus adversrios. Estais novamente com um exrcito em p de guerra,
no  verdade? VOLSCO - E um exrcito verdadeiramente real. Os
centuries e seus corpos j se encontram nos quartis, a soldo do
governo, prontos a marchar com uma hora de aviso.

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ROMANO - Alegra- me saber que esto de prontido, parecendo- me que sou
eu o homem que os vai pr em movimento. Assim, senhor, dou- vos de
corao as boas- vindas e me declaro encantado com vossa companhia.
VOLSCO - Assim me privais do que me pertence, senhor; sou eu que tenho
mais razes para alegrar- me com a vossa. ROMANO - Muito bem; sigamos
juntos.

(Saem.) 

Cena IV 

ntio. Defronte da casa de Aufdio. Entra Coriolano, disfarado, com
vestes humildes e a cabea encoberta. 

CORIOLANO - Bela cidade, esta ntio. Tuas vivas,  cidade! fui eu que
fiz. Inmeros herdeiros destes belos edifcios em minhas guerras vi
precipitarem- se com estertores. No me reconheas agora, para que, de
espeto armadas tuas mulheres, e de pedra os filhos, no me venham matar
numa batalha que parea de anes.

(Entra um cidado.) 

O cu vos guarde, meu senhor. CIDADO - Como a vs. CORIOLANO - Se vos
agrada, mostrai- me onde reside o grande Aufdio. Est em ntio? CIDADO
- Est, e nesta noite d para os nobres da cidade, em sua prpria casa,
uma festa. CORIOLANO - Por obsquio, onde fica essa casa? CIDADO - 
essa que vedes em vossa frente. CORIOLANO - Muito agradecido, meu
senhor; passai bem.

(Sai o cidado.) 

 mundo, mundo, de voltas inconstantes! Dois amigos jurados, que nesta
hora pareciam ter um s corao no duplo peito; cujos leitos, lazeres,
exerccios e refeies de acordo sempre andavam, gmeos ao parecer,
inseparveis pela fora do amor: dentro de uma hora, por uma divergncia
de coisinha, na mais amarga divergncia explodem. Assim tambm ferrenhos
inimigos, cujas paixes e planos destrutivos impediam de ao sono se
entregarem, por um simples acaso, algum pretexto que no vale um centil,
tornam- se amigos do peito e do- se em casamento os filhos. Assim se d
comigo: odeio a ptria; amo agora a cidade do inimigo. Vou entrar. Caso
a vida ele me tire, far, to- s, justia; em me acolhendo,  ptria
dele prestarei servio.

(Sai.) 

Cena V 

O mesmo. Vestbulo em casa de Aufdio. Msica dentro. Entra um criado. 

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PRIMEIRO CRIADO - Vinho! vinho! vinho! Que servio dessa gente! S
parece que todos esto dormindo! 

(Sai.) (Entra outro criado.) 

SEGUNDO CRIADO - Onde est Cotus? O patro est chamando. Cotus! 

(Sai.) (Entra Coriolano.) 

CORIOLANO - Bela casa! A ceia cheira bem; eu  que no pareo hspede. 

(Volta o primeiro criado.) 

PRIMEIRO CRIADO - Que desejais, amigo? De onde sois? Aqui no h lugar
para vs. Ficai na porta, por obsquio. 

(Sai.) 

CORIOLANO - No mereo acolhida mais afvel, j que sou Coriolano. 

(Volta o segundo criado.) 

SEGUNDO CRIADO - De onde sois, senhor? O porteiro estar com os olhos no
lugar, para permitir a entrada a um tipo desses? Por obsquio, ide
embora. CORIOLANO - Arreda! SEGUNDO CRIADO - "Arreda?" Vs  que tereis
de arredar- vos. CORIOLANO - Mostrai- vos insolente. SEGUNDO CRIADO -
Ah! sois to valente assim? J vamos ter uma conversazinha. 

(Entra o terceiro criado; volta o primeiro.) 

TERCEIRO CRIADO - Quem  esse sujeito? PRIMEIRO CRIADO -  um tipo
original, como nunca vi outro assim. No consigo faz- lo sair daqui.
Vai chamar o patro, por obsquio. TERCEIRO CRIADO - Amigo, que tens a
fazer aqui? Por obsquio, evita esta casa. CORIOLANO - Permiti que me
conserve de p; no causarei dano  lareira. TERCEIRO CRIADO - Quem
sois? CORIOLANO - Um gentil- homem. TERCEIRO CRIADO - Admiravelmente
pobre. CORIOLANO -  o que sou, de fato. TERCEIRO CRIADO - Por favor,
gentil- homem pobre, escolhei pousada. Aqui no h lugar para vs. Ide
embora, por obsquio. Vamos! CORIOLANO - Continuai com vossas ocupaes;
empanturrai- vos de frios.

(D- lhe um empurro.) 

TERCEIRO CRIADO - Ah! no quereis? Por favor, faze saber ao patro que
hspede estranho ele tem aqui. SEGUNDO CRIADO - Vou j. 

(Sai.) 

TERCEIRO CRIADO - Onde moras? CORIOLANO - Debaixo da abbada. 

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TERCEIRO CRIADO - "Debaixo da abbada?" CORIOLANO - Sim. TERCEIRO CRIADO
- E onde fica isso? CORIOLANO - Na cidade dos milhanos e dos corvos.
TERCEIRO CRIADO - "Na cidade dos milhanos e dos corvos?" Que grande
asno! Nesse caso, moras tambm com as gralhas? CORIOLANO - No; no
estou a servio de teu patro. TERCEIRO CRIADO - Como assim, senhor!
Tendes alguma coisa que ver com meu patro? CORIOLANO - Sim, alguma
coisa mais honesta do que seria intrometer- me com tua patroa. No paras
de falar. Leva teu prato! Fora daqui!

(Expulsa- o com pancada.) (Entra Aufdio e o primeiro criado.) 

AUFDIO - Quem  esse camarada? SEGUNDO CRIADO - Aqui, senhor. Eu o
teria batido como num co, se no fosse o receio de incomodar l dentro
os nobres. AUFDIO - Que queres? De onde vens? Qual o teu nome? Por que
no falas? Vamos, homem: fala! Como te chamas? CORIOLANO (descobrindo o
rosto) - Se no me conheces ainda, Tulo, e, vendo- me, no pensas quem
eu seja, de fato, ser fora que eu mesmo me nomeie. AUFDIO - Qual teu
nome?

(Os criados se afastam para o fundo.) 

CORIOLANO - Um nome dissonante para os volscos e duro aos teus ouvidos.
AUFDIO - Dize: o nome? Tens aspecto sanhoso, mas revelas o mando nas
feies, e embora roto tragas todo o velame, inculcas barco de nobre
compostura. Qual teu nome? CORIOLANO - Ento prepara a fronte; vais
franzi- la. Inda no me conheces? AUFDIO - No; teu nome? CORIOLANO -
Meu nome  Caio Mrcio, que a ti prprio e aos volscos todos causa foi
de males e prejuzos inmeros, conforme meu sobrenome o prova:
Coriolano. Os trabalhos penosos, os perigos por que passei, as
incontveis gotas de sangue derramadas pela minha ptria de todo
ingrata, me valeram to- somente este nome, monumento magnfico e penhor
do dio e repulsa que me deves votar. Resta- me apenas esse ttulo. A
inveja e a m vontade do povo, consentidas pelos nossos nobres
bastardos, que me abandonaram, tudo o mais consumiram. Sim, deixaram que
de Roma eu chegasse a ser expulso pela voz dos escravos. Foi to grande
calamidade que ao teu lar me trouxe; no na esperana - quero que me
entendas - de conservar a vida. Se eu tivesse medo da morte, dentre os
homens todos, de ti, principalmente, fugiria. Foi o rancor, apenas, o
desejo de com meus proscritores justar contas que  tua frente me
trouxe. Se tiveres um corao cheio de raiva, pronto para vingar os
males a ti feitos e endireitar os aleijes 

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que o oprbrio em tua ptria causou: no percas tempo e de minha
desgraa te aproveita; usa- a de forma que meus vingadores servios
favoream teus intentos, pois combater pretendo minha ptria gangrenada
com toda a odiosidade dos demnios do inferno. Mas no caso de no
quereres arriscar- te a tanto, de j estares cansado de aventuras...
Para ser breve: mais do que enfarado da vida me declaro e ao teu antigo
rancor estendo agora este pescoo. Tolo te mostrars, se o no cortares,
pois teus passos segui sempre com dio, do seio de tua ptria toneladas
de sangue fiz correr, j no podendo viver seno para teu grande
oprbrio, a menos que servios te prestasse. AUFDIO -  Mrcio! Mrcio!
Uma por uma as tuas palavras arrancaram- me do peito as razes de meu
rancor antigo. Se Jpiter, com sua voz divina, do alto daquela nuvem me
dissesse: " certo!" no lhe dera maior crdito do que te dou, meu
Mrcio, em tudo nobre. Deixa que eu passe os braos nesse corpo em que
cem vezes eu quebrei a lana e de estilhaos arranhei a lua. Cinjo a
bigorna, assim, de minha espada, e com tanta veemncia e com nobreza
luto com teu afeto, como sempre lutei com fria cobiosa contra tua
bravura. A ti, somente, o digo: amava a jovem que ora  minha esposa.
Jamais noivo nenhum soltou suspiros to sinceros que os meus. Porm, ao
ver- te neste momento - a ser em tudo nobre! - mais enlevado o corao
no peito sinto saltar, do que quando a soleira transps de casa pela vez
primeira minha esposa recente. Ora te conto, Marte, que j aprestamos
Outro exrcito, e que eu tinha a inteno de novamente tentar das carnes
arrancar- te o escudo, ou perder nisso o brao. Derrotaste- me doze
vezes a fio, e desde essa poca sonhei todas as noites com recontros
entre ns dois. Travados, no meu sono, rolvamos no cho, o capacete um
do outro a desatar, e nos pescoos, encrispados, os dedos, do que sempre
meio morto sem causa eu despertava. Digno Mrcio, se mais nenhuma queixa
de Roma ns tivssemos, afora teres sido banido, alistaramos de doze
at setenta os homens todos e nas entranhas dessa ingrata Roma faramos
correr a guerra como rio impetuoso que transborda e alaga. Vem para
dentro e aperta a mo amiga de nossos senadores, que aqui vieram trazer-
me as despedidas, pois armado ora estou contra vossos territrios, muito
embora no contra a prpria Roma. CORIOLANO -  deuses, abenoais- me?
AUFDIO - Assim, guerreiro sem par, se a direo tomar quiseres de tua
prpria represlia, aceita metade de meus homens e, de acordo com teu
alto saber neste domnio, j que conheces a fraqueza e a fora de teu
pas, regula a tua marcha, ou seja para contra as prprias portas dos
romanos bater, ou com violncia visit- los nas partes mais remotas e
derrot- los antes de destru- los. Mas entra! Quero logo apresentar- te
aos que tero de dizer "Sim" a todos os teus desejos. Vezes mil boas-
vindas! E agora mais amigo do que sempre fui inimigo. E, Mrcio, eu o
fui de fato. Vossa mo.

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Sois bem- vindo. 

(Saem Coriolano e Aufdio.) 

PRIMEIRO CRIADO (avanando) - Eis a uma modificao extraordinria.
SEGUNDO CRIADO - Por esta mo, tinha pensado em bater- lhe com um
porrete; mas agora me diz o esprito que a roupa dele no dizia o que
ele era. PRIMEIRO CRIADO - E que punho ele tem! S com um dedo e o
polegar fezme rodar que nem um pio. SEGUNDO CRIADO - Pelo rosto eu vi
que ele no era pouca coisa. Homem, ele tinha feies, parece- me... Nem
sei como caracteriz- las. PRIMEIRO CRIADO -  certo. Parecia... Quero
ser enforcado se eu no suspeitei de que ele encerrava mais do que eu
poderia imaginar. SEGUNDO CRIADO - Eu tambm posso jur- lo. 
simplesmente o homem mais raro do mundo. PRIMEIRO CRIADO -  isso mesmo;
mas decerto conheceis um guerreiro maior do que ele. SEGUNDO CRIADO -
Quem ? Meu amo? PRIMEIRO CRIADO- Isso nem se pergunta. SEGUNDO CRIADO -
Vale seis como ele. PRIMEIRO CRIADO- No, no tanto assim; mas
considero- o maior guerreiro. SEGUNDO CRIADO - Com a breca! Ora vede...
A gente nem sabe como dizer, mas para a defesa de uma cidade, nosso
general  excelente. PRIMEIRO CRIADO - Sim, e tambm para um assalto. 

(Entra o terceiro criado.) 

TERCEIRO CRIADO -  escravos! Posso contar- vos novidades! Novidades,
marotos! PRIMEIRO E SEGUNDO CRIADOS - Quais! quais? quais? Conta- nos
algumas. TERCEIRO CRIADO - Entre todos os povos, no quisera ser romano;
equivaleria a estar condenado. PRIMEIRO E SEGUNDO CRIADOS - Por qu? Por
qu? TERCEIRO CRIADO - Ora, acha- se l dentro quem estava acostumado a
zurzir nosso general: Caio Mrcio. PRIMEIRO CRIADO - Por que dissestes:
"zurzir nosso general?" TERCEIRO CRIADO- No digo que ele tenha zurzido
nosso general; mas sempre lhe deu muito trabalho. SEGUNDO CRIADO -
Vamos, aqui entre ns, somos amigos e companheiros; foi sempre muito
duro para ele; ouvi o prprio general dizer- lhe isso. PRIMEIRO CRIADO -
Era muito duro para ele. Para dizer a verdade sem rodeios: diante de
Corolos ele o cortou e retalhou como um carbonado. SEGUNDO CRIADO - E
se tivesse natureza de canibal, o teria comido assado. PRIMEIRO CRIADO -
Mas continua a contar as novidades. TERCEIRO CRIADO - Ora, l dentro ele
est sendo tratado como se fosse filho e herdeiro de Marte; deram- lhe a
cabeceira da mesa; nenhum senador 

66 

lhe faz qualquer pergunta, a no ser de p, na frente dele e de cabea
descoberta. At nosso general o trata como a namorada, benze- se com uma
das mos e revira os olhos, quando ele fala. Mas o ponto principal da
novidade  que o nosso general foi cortado em dois, j no sendo seno a
metade do que era ontem, porque o outro ficou com a outra metade, por
instncia e consentimento de toda a mesa. Diz ele que vai puxar as
orelhas do porteiro de Roma; vai ceifar tudo o que encontrar, deixando
raso o caminho. SEGUNDO CRIADO - E ele  to capaz de fazer isso, como
qualquer pessoa que eu imagine. TERCEIRO CRIADO - Capaz? H de faz- lo.
Porque, ora vede, senhor: tanto ele tem amigos como inimigos, os quais
amigos, senhor - por assim dizer no ousam - ora vede, senhor - como
dizemos - declarar- se amigos, enquanto o virem na indireo. PRIMEIRO
CRIADO - Indireo? Que quer dizer isso? SEGUNDO CRIADO - Mas quando
eles virem, senhor, o homem em condies, com a crista novamente de p,
todos eles sairo das tocas como coelhos depois que chove e viro
banquetear- se com ele. PRIMEIRO CRIADO - Mas para quando ser isso?
TERCEIRO CRIADO - Amanh, hoje, neste momento. Hoje  tarde ouvireis
rufar o tambor. , por assim dizer, a primeira parte do festim, para ser
executada antes de limparem os lbios. SEGUNDO CRIADO - Bem; nesse caso
vamos ver outra vez o mundo de pernas para o ar. Esta paz s serve para
enferrujar o ferro, engordar os alfaiates e aumentar o nmero dos
fazedores de baladas. PRIMEIRO CRIADO - Que venha a guerra,  o que eu
digo; ela ultrapassa tanto a paz como o dia a noite;  lesta, de ouvido
fino e cheia de atividades. A paz  uma verdadeira apoplexia, um
letargo, obtusa, surda, sonolenta, insensvel e  maior geradora de
bastardos do que a guerra  destruidora de homens. SEGUNDO CRIADO - 
isso mesmo. E assim como a guerra, de algum modo, pode ser denominada o
maior fautor de violao, no se pode negar que seja a paz grande
fazedora de cabres. PRIMEIRO CRIADO - Sim,  causa de se odiarem os
homens. TERCEIRO CRIADO - E a razo  que eles, ento, tm menos
necessidade uns do outros. Guerra, custe quanto custar! Espero ver os
romanos por preo to barato quanto os volscos. Esto se levantando da
mesa! Esto se levantando! TODOS - Entremos! Entremos!

(Saem.) 

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Cena VI 

Roma. Uma praa pblica. Entram Sicnio e Bruto. 

SICNIO - Nada ouvimos falar a seu respeito; no precisamos, pois, ter
medo dele. Seu furor se acalmou com a paz reinante e a quietao do
povo, que vivia em desordem selvagem. Seus amigos diante de ns
envergonhados ficam por tudo correr bem; prefeririam muito embora tambm
a sofrer viessem, ver desordeiros perturbar as ruas a ver os negociantes
em suas lojas cantar alegremente ou dirigirem- se em paz para o
trabalho.

(Entra Mennio.) 

BRUTO - Soubemos escolher o tempo certo. No  Mennio? SICNTO -  ele!
 ele! Amvel se tem mostrado ultimamente. Salve, senhor! MENNIO - Meus
cumprimentos. SICNIO - Ningum sente falta, senhor, de vosso Coriolano,
excludos seus amigos. A repblica continua de p e assim ficara, embora
mais raivoso ele se achasse. MENNIO - Tudo est bem; porm melhor seria
se ele tivesse contemporizado. SICNIO - Para onde foi? Sabeis? MENNIO
- A esse respeito no ouvi coisa alguma. A me e a esposa no tm
notcias.

(Entram trs ou quatro cidados.) 

CIDADOS - Deus a ambos ampare. SICNIO - Boa tarde, vizinhos. BRUTO -
Boa tarde para todos! Boa tarde para todos! PRIMEIRO CIDADO - Ns, com
mulher e filhos, nos sentimos na obrigao de orar por vs de joelho.
SICNIO - Vivei e prosperai. BRUTO - Adeus, vizinhos. Desejara que
Mrcio vos amasse como ns dois. CIDADOS - Os deuses vos protejam.
SICNIO E BRUTO - Adeus! Adeus!

(Saem os cidados.) 

SICNIO - O tempo agora  muito mais alegre e melhor de viver do que
quando estes camaradas corriam pelas ruas gritando por socorro. BRUTO -
Caio Mrcio na guerra sempre foi oficial digno, mas insolente, pelo
orgulho inflado, ambicioso sem conta, muito egosta... SICNIO - E
desejoso de estar s no trono, sem assistente algum. MENNIO -No penso
assim. SICINIO - Para nosso pesar  o que teramos verificado, se ele
conseguisse ter sido cnsul.

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BRUTO - Felizmente os deuses preveniram tal coisa e agora Roma sem ele
continua calma e firme. 

(Entra um edil.) 

EDIL. - Dignos tribunos, um escravo preso por ns e encarcerado trouxe a
nova de que os volscos, em dois distintos corpos, os nossos territrios
invadiram e com furor guerreiro incontrastvel derrubam tudo o que acham
no caminho. MENNIO -  Aufdio, que do exlio tendo ouvido do nosso
Mrcio, novamente ao mundo mostra os cornos, que sempre conservara
dentro da concha, sem ousar tir- los, quando ao lado de Roma estava
Mrcio. SICNIIO - Por que falais de Mrcio? BRUTO - Mandai logo
chicotear esse espalhador de boatos.  impossvel que os volscos se
atrevessem a romper nossos pactos. MENNIO -  impossvel? Sabemos muito
bem que isso  possvel; s em meu tempo vi trs vezes isso. Mas convm
conversar com esse escravo antes de castig- lo, e perguntar- lhe onde
ele se informou. No acontea virdes a chibatear o prprio aviso e dar
no mensageiro que vos manda ter cautela com o que h de ser temido.
SICNIO - No faleis nisso; sei que isso  impossvel. BRUTO - No pode
ser.

(Entra um mensageiro.) 

MENSAGEIRO - Todos os nobres foram para o senado muito cabisbaixos.
Chegou qualquer notcia que a eles todos deixou completamente
transtornados. SICNIO - Foi o escravo; mandai que o chibateiem diante
do povo. Isso  trabalho dele; foi a notcia, apenas. MENSAGEIRO - Sim,
mui digno senhor; foi confirmada essa notcia, alm de outras bem mais,
bem mais terrveis. SICNIO - Que outras notcias mais terrveis?
MENSAGEIRO - Fala- se por muitas bocas, claramente - ignoro quanto haja
de verdade nisso tudo - que Mrcio, juntamente com Aufdio, contra Roma
dirige um grande exrcito, prometendo vingana da largura da distncia
que vai das coisas velhas s mais recentes. SICNIO -  de acreditar.
BRUTO - Foi espalhada essa notcia apenas para que a gente de nimo
abatido deseje a volta do bondoso Mrcio. SICNIO - Eis todo o ardil da
coisa. MENNIO -  inverossmil; ele e Aufdio concordam tanto como duas
contradies irredutveis.

(Entra outro mensageiro.) 

SEGUNDO MENSAGEIRO - Do senado vos chamam. Um exrcito pavoroso, com
Caio Mrcio  frente, com Aufdio associado, assola nossos territrios;


69 

fora abrem caminho; o incndio espalham e tomam tudo o que acham. 

(Entra Comnio.) 

COMNIO - Oh! realizastes um trabalho e tanto! MENNIO - Que aconteceu?
Quais so as novidades? COMNIO - Oh! violar conseguistes vossas filhas,
sobre vossas cabeas todo o chumbo da cidade fundir, em vossos prprios
narizes desonrar vossas esposas... MENNIO - Que novidades h? Que
novidades? COMNIO - Vossos templos queimados at  base, vossas
imunidades, de que tanto caso fazeis, apertadas dentro de um furo de
verruma. MENNIO -Por obsquio, que novidades h? - Fizestes obra
magistral,  o que temo. - Por obsquio, vossas notcias? Se, em
verdade, Mrcio com os volscos se juntou... COMNIO - "Se?"  o deus dos
volscos. Condu- los como um ser que houvesse sido por um criador
formado, diferente da natureza e mais habilidoso na feitura dos homens,
e eles todos sob sua direo avanam contra nossos bonecos to
confiantes como meninos que perseguem borboletas ou aougueiros quando
matam moscas. MENNIO - Belo trabalho o vosso e o desses homens de
avental, que importncia dveis tanto aos votos dos artfices e ao
hlito dos comedores de alho. COMNIO - Vossa Roma vai ele sacudir em
vossas prprias orelhas. MENNIO - Tal como Hrcules fazia nas rvores
de frutas. Que trabalho admirvel o vosso! BRUTO - Mas  certo, senhor,
o que dizeis? COMNIO - Ora, certssimo. Podeis tornar- vos plido at
achardes notcias em contrrio. Sorridentes, passam- se muitos para os
volscos; quantos procuram resistir so transformados em alvo de chacota
pela ignvia valorosa, morrendo como todos de provada constncia. Quem o
pode censurar? Tanto os vossos inimigos como os dele o valor lhe
reconhecem. MENNIO - Estaremos perdidos, se o mui nobre vencedor no
tiver de ns piedade. COMNIO - Quem ir suplicar- lhe? Por vergonha no
o faro os tribunos, merecendo sua demncia o povo como o lobo merece a
do pastor. Se lhe dissessem seus melhores amigos: "S benigno para
Roma", teriam procedido como os que o dio dele mereceram, comportando-
se, assim, como inimigos. MENNIO -  certo; caso o viesse atear em
minha casa o fogo que iria consumi- la, no teria coragem de dizer- lhe:
"Parai, vos peo!" Bela mo tivestes nesse negcio, vs e todos esses
artesos de mos destras. Trabalhastes belamente com as mos. COMNIO -
Chamastes sobre Roma um tremor que desafia a cura. SICNIO E BRUTO - No
digais que o chamamos.

70 

MENNIO - Como!  isso por caso, obra nossa? Ns o amvamos; porm como
animais e nobres fracos o entregamos a vossa malta informe, que o
expulsou, entre apupos, da cidade. COMNIO - Mas receio que aos urros
eles todos o reconduzam. Tulo Aufdio, o nome segundo entre os ilustres,
obedece, como subordinado, s ordens dele. O desespero  toda a arte
poltica, toda a fora e defesa de que Roma ora dispe contra ele.

(Entra um bando de cidados.) 

MENNIO - A vem o bando. - Ento Aufdio est com ele? - Fostes vs que
empestastes o ar, quando jogveis para o alto vossos gorros fedorentos e
engordurados, e soltveis gritos pelo exlio de Mrcio. Ele a vem
vindo, no havendo um cabelo na cabea de seus soldados que ora no se
mude num bom chicote. Todos os idiotas que para cima os gorros atiraram
vai ele derrubar para pagar- se dos votos alcanados. No importa; mesmo
que ele a ns todos consumisse num s tio: de sobra o merecemos.
CIDADOS - Em verdade, a notcia  assustadora. PRIMEIRO CIDADO - Por
minha parte, quando eu disse: "Voto pela expulso!" acrescentei: "E
pena!" SEGUNDO CIDADO - O mesmo eu fiz. TERCEIRO CIDADO - Eu tambm;
e, para dizer a verdade, muitos outros disseram a mesma coisa. O que
fizemos foi pelo melhor, e embora tivssemos concordado voluntariamente
em que ele fosse banido, deu- se isso contra nossa vontade. COMNIO -
Bela coisa sois todos vs, com vossos votos! MENNIO - tima coisa vs e
vossa malta conseguistes fazer. E agora, vamos ao Capitlio? COMNIO -
Sim, que mais faremos?

(Saem Comnio e Mennio.) 

SICNIO - Ide, meus mestres, para vossas casas. No fiqueis assustados.
Esses fazem parte de um grupo que se alegraria se visse confirmado o que
simula, to- somente, temer. Ide, acolhei- vos a vossas casas, sem
mostrar receio. PRIMEIRO CIDADO - Que os deuses se amerceiem de ns!
Vamos, mestres; vamos para casa. Eu sempre disse que procedamos mal em
banilo. SEGUNDO CIDADO - E assim todos. Mas vamos para casa.

(Saem os cidados.) 

BRUTO - Essa notcia no me agrada em nada. SICNIO - Nem a mim. BRUTO -
Vamos ao Capitlio. Perderia metade de meus bens com muito gosto, s
para desmenti- la. SICNIO - Vamos logo. 

(Saem.) 

71 

Cena VII 

Acampamento a pequena distncia de Roma. Entram Aufdio e seu tenente. 

AUFDIO - Continua passando muita gente para o Romano? TENENTE - Ignoro
o seu feitio, mas para vossos homens ele  a prece de antes das
refeies, toda a conversa  mesa, e as graas quando se levantam. Nesta
campanha, meu senhor, ficastes eclipsado at mesmo para os vossos.
AUFDIO - No  possvel fazer nada agora, para no estropiar a prpria
marcha de meus planos, com quanto ora empregasse. Sua atitude  muito
mais altiva, at mesmo comigo, do que fora de imaginar no instante de
abra- lo pela primeira vez. Inaltervel, porm,  a sua natureza,
sendo- me foroso desculpar o que no pode jamais ser corrigido. TENENTE
- No entretanto, senhor, eu desejara - e s digo isso visando vosso bem
- que no tivsseis a direo com ele dividido. Deveria o comando ser s
vosso, ou dele, to- somente. AUFDIO - Sim, compreendo- te. Mas podes
ficar certo de que quando ele tiver de prestar contas, hei de dele
exigir o que ele nem suspeita. Muito embora parea, e ele assim pense, e
ao prprio olho do vulgo se afigure que ele administra bem o Estado
volsco, luta como um drago, bastando a espada sacar para vencer: algo
ele deixa por fazer, que o pescoo ir quebrar- lhe, ou pr o meu em
risco, quando as contas tivermos de justar. TENENTE - Uma pergunta,
senhor: acreditais, realmente, que ele venha a conquistar Roma? AUFDIO
- Toma todos os burgos antes mesmo de cerc- los; a nobreza de Roma lhe
pertence; amam- no os senadores e os patrcios; os tribunos no lutam, e
seu povo ser to pressuroso em repatri- lo como foi na expulso
precipitado. Sou de opinio que ele far com Roma como com o peixe faz a
guia marinha, que o apanha por direito soberano da natureza. Foi
primeiro um nobre servidor do pas, mas sempre inapto para mostrar
moderao nas honras, fosse isso por orgulho, com que o xito de todo
dia mancha o homem de sorte, ou por qualquer defeito do juzo, que o
impede sempre de tirar partido dos casos de que  dono; ou fosse efeito
de sua natureza que no muda de atitude no casco e na almofada, levando-
o a ser na paz to rigoroso e austero que na guerra: uma somente dessas
faltas - pois germe tem de todas - no todas - quero ser com ele justo -
o fez temido, odiado e, alfim, banido.  grande o seu merecimento, 
certo; mas asfixia- o quando o manifesta. Nossas virtudes so medidas
pelo julgamento do tempo, no possuindo qualquer poder, de si
recomendvel, mais notrio, sepulcro do que a ctedra de onde  feito
seu prprio panegrico. O prego expulsa o prego; a chama, a chama;
perante um ttulo outro perde a fama. A fora vence a fora... Que
prossiga! Quando tiveres Roma como amiga, caro

72 

Mrcio, mais pobre ficars e em pouco tempo em meu poder cairs. 

(Saem.) 

ATO V Cena I 

Roma. Uma praa pblica. Entram Mennio, Comnio, Bruto, Sicnio e
outros.

MENNIO - No, no irei; ouvistes o que disse ao seu antigo general; que
o amava por maneira especial... Dava- me o nome de pai; mas que importa
isso? Ide vs mesmos que o banistes; prostrai- vos a uma milha de sua
tenda e percorrei, de joelhos, a estrada que possa ir diretamente  sua
compaixo. Uma vez que ele no quis ouvir Comnio, vou deixando- me
ficar por aqui mesmo. COMNIO - Ele fingiu que no me conhecia. MENNIO
- Estais ouvindo? COMNIO - Mas uma vez chamou- me pelo nome. Falei- lhe
em nossas relaes antigas e nas gotas que, juntos, derramamos. No
atendeu ao nome "Coriolano", proibindo- me de dar- lhe qualquer outro,
por julgar- se sem ttulo, uma espcie de coisa alguma, at que um novo
nome na fornalha de Roma ele forjasse. MENNIO - Vedes que bela coisa
realizastes? Dois tribunos que se sacrificaram no banco de tormentos,
porque em Roma carvo barato houvesse. Belo feito! COMNIO - Cheguei a
lhe lembrar quanta nobreza h no perdo que j ningum espera. Disse ser
isso petio mesquinha de um Estado  pessoa que ele prprio mandara
castigar. MENNIO - Perfeitamente. Poderia falar de outra maneira?
COMNIO - Procurei o interesse despertar- lhe para os amigos a ele mais
chegados. Toda sua resposta foi que tempo no lhe sobrava para separ-
los de um monte de refugos bolorentos. Era loucura, disse, s por causa
de um pobre gro ou dois, no lanar fogo no monturo que o olfato nos
ofende. MENNIO - Um pobre gro ou dois! Eu sou um deles. A me, a
esposa, o filho, este valente companheiro os gros somos. Os refugos
bolorentos sois vs, cujo mau cheiro chega a passar a lua. Assim,
teremos de ser queimados s por vossa causa. SICNIO - No, tende
compaixo? Se vosso auxlio nos recusais numa necessidade to grande
como nunca, pelo menos exprobrar no queirais nossa desgraa. Mas 
certeza: se vos resolvsseis a causa a defender de vossa ptria, vossa
bela palavra, mais potente, muito mais, do que a fora que pudssemos
improvisar, deter conseguiria nosso compatriota. MENNIO - No; no
entro nisso. De forma alguma. SICNIO - Ide falar- lhe, por compaixo.
MENNIO - Que poderei fazer?

73 

BRUTO - Tentar, apenas, o que para Roma junto de Mrcio vosso amor
consegue. MENNIO - Bem; mas digamos que ele me despea, como fez com
Comnio, sem ouvir- me... E depois? Um amigo molestado, atingido de
cheio pela mgoa de sua grosseria... E se for isso? SICNIO - Vossa boa
vontade, nesse caso, ter alcanado a gratido de Roma, por terdes
procedido nobremente. MENNIO - Bem, vou tentar; espero ser ouvido. Mas
ter mordido o lbio e resmungado para nosso Comnio, me apavora. No foi
bem apanhado; certamente ainda estava sem jantar. Vazias as veias, nosso
sangue se arrefece, indispostos ficamos desde cedo, incapazes de dar e
de perdoar. Mas quando enchemos os canais e as calhas de nosso sangue
com comida e vinho, fica- nos a alma muito mais malevel do que durante
esses jejuns de padre. Vou esperar, assim, que entre na dieta de meu
pedido, para ento falar- lhe. BRUTO - Conheceis o caminho da bondade
que lhe  prpria; extraviar- vos  impossvel MENNIO - Por minha f!
vou p- la  prova, venha da o que vier. Dentro de pouco ficarei
conhecendo meu prestgio.

(Sai.) 

COMNIO - Jamais ele o ouvir. SICNIO - No? COMNIO -  o que eu
penso. Sentado est em ouro; os olhos, rubros como para lanar o
incndio em Roma, sendo sua prpria injria o carcereiro de sua
compaixo. Ajoelhei- me na frente dele; muito vagamente murmurou:
Levantai- vos! despedindo- me assim, com a mo muda. O que pretende
fazer, depois mandou- me por escrito, e o que jamais far; por juramento
se acha obrigado a cumprir tudo  risca. Assim, no temos esperana
alguma. a menos que sua nobre me e a esposa, conforme me disseram, se
resolvam a lhe impetrar piedade para a ptria. Vamos, pois, procur-
las, apressando- as quanto estiver em nossa justa instncia. 

(Saem.) 

Cena II 

O acampamento volsco diante de Roma. Os guardas esto em seus postos;
Mennio aproxima- se deles. 

PRIMEIRO GUARDA - Alto a! De onde vindes? SEGUNDO GUARDA - Nem um passo
mais para a frente! MENNIO - Sois, valentes guardas. Mas, com licena:
oficial eu sou do Estado e vim falar com Coriolano. PRIMEIRO GUARDA - De
que parte? MENNIO - De Roma.

74 

PRIMEIRO GUARDA - Ento no pode; foroso  que volteis; o nosso chefe
no quer ouvir de l coisa nenhuma. SEGUNDO GUARDA - Vereis Roma entre
chamas, antes mesmo de poderdes falar com Coriolano. MENNIO - Caros
amigos, se j ouvistes vosso chefe falar de Roma e dos amigos que ele
tem l: aposto cem contra um que meu nome j vos feriu o ouvido:
Mennio. PRIMEIRO GUARDA - Pouco importa qual seja ele. Para trs, que a
virtude desse nome aqui no tem passagem. MENNIO - Companheiro, teu
general, repito,  meu amigo. O livro tenho sido de seus atos valorosos,
no qual os homens leram sua fama sem par, at aumentada, que exaltar
sempre eu soube meus amigos - dos quais ele  o primeiro - com a
amplitude que a verdade comporta sem declnio. Algumas vezes, mesmo,
como bola num terreno macio, estive a ponto de ultrapassar a meta; em
louvor dele quase pus a chancela nas mentiras. Por isso tudo, amigo, 
necessrio deixardes- me passar. PRIMEIRO GUARDA - Em verdade, senhor,
ainda mesmo que houvsseis dito tantas mentiras a seu favor quantas
palavras pronunciastes em vosso prprio proveito, no passareis aqui.
No; nem que fosse to virtuoso mentir, como viver castamente. Por
obsquio, retornai. MENNIO - Por obsquio, amigo, lembrai- vos de que
meu nome  Mennio, adepto sempre entusiasta de vosso general. SEGUNDO
GUARDA - Ainda que tivsseis sido seu caluniador - como h pouco o
confessastes - sou homem que digo a verdade sob as ordens dele, razo
por que vos declaro que no podeis passar. Por isso, retornai. MENNIO -
Poders informar- me se ele j jantou? Porque s desejo falar- lhe
depois do jantar. PRIMEIRO GUARDA - Sois romano, no  verdade? MENNIO
- Sou o que  teu general. PRIMEIRO GUARDA - Nesse caso devereis ter
dio a Roma, como ele tem. Podereis, quando pusestes porta fora seu
verdadeiro defensor, e, numa crassa ignorncia popular, entregastes
vosso escudo ao inimigo, podereis crer que sereis capazes de conter
sua vingana com os gemidos fceis das velhas, as palmas virgens de
vossas filhas ou com a interferncia paraltica de um velho tonto como
pareceis ser? Acreditais, mesmo que o incndio que est prestes a
destruir vossa cidade possa ser apagado com um sopro assim to fraco?
No; estais enganado. Voltai, pois, para vossa Roma e preparaivos para a
execuo. Estais condenados, nosso general no vos conceder trgua nem
perdo. MENNIO - Maroto, se teu capito soubesse que me encontro aqui,
tratarme- ia com considerao. SEGUNDO GUARDA - Vamos! Meu capito no
vos conhece. MENNIO - Quero dizer: teu general.

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PRIMEIRO GUARDA - Meu general no se preocupa convosco. Para trs! J
disse; do contrrio, derramarei a meia pinta de sangue... Para trs!...
que  s o que vos resta. Para trs! MENNIO - Sim... Mas, companheiro!
companheiro!

(Entram Coriolano e Aufdio.) 

CORIOLANO - Que  que h? MENNIO - Agora, companheiro, vou mostrar- vos
como as coisas so; vereis em que conceito eu sou tido. Chegou o momento
de verificardes que no cabe nas obrigaes de um Joo- porteiro
separar- me de meu filho Coriolano. Deduz, da maneira por que vou ser
recebido, se no te encontras em perigo de ser enforcado ou de qualquer
outra morte mais demorada para os espectadores e mais cruel para o
paciente. Olha agora bem de frente e desmaia por causa do que te espera.
(A Coriolano.) Que os deuses gloriosos se renam a todas as horas em
conselho, para tratar de tua prosperidade, e que no te amem menos do
que o teu velho pai Mennio.  meu filho! meu filho! Preparas fogo para
ns. Olha: aqui trago gua para apag- lo. Custoume a decidir- me a vir
falar- te; mas por estar convencido de que somente eu poderia comover-
te, deixei que os suspiros me trouxessem at vossas portas, para
conjurar- te a perdoar a Roma e a teus compatriotas suplicantes. Que os
deuses bondosos abrandem tua clera e lancem sua borra sobre este tipo
que, como um bloco de pedra, me negou acesso a tua presena. CORIOLANO -
Para trs! MENNIO - Como! Para trs! CORIOLANO - Esposa, me e filho,
desconheo- os. Confiados a outros tenho os meus negcios.  certo que a
vingana me pertence; porm minha demncia ora se encontra no corao
dos volscos. A amizade que tivemos, primeiro o olvido ingrato deixar
venenosa, que a piedade poder avaliar. Por isso, parte. Mais fortes so
os meus ouvidos contra vossos pedidos do que vossas portas contra minha
investida. No entretanto, por j te ter amado, recebe isto. 

(D- lhe um papel.) 

Foi escrito somente por tua causa, e tencionava enviar- to. Outra
palavra, Mennio, no desejo que me digas. Aufdio, este homem foi meu
bemamado na cidade de Roma. No entretanto, como vs... AUFDIO -
Revelai- vos sempre firme.

(Saem Coriolano e Aufdio.) 

PRIMEIRO GUARDA - Ento, senhor, vosso nome  Mennio? SEGUNDO GUARDA -
Como vistes,  uma palavra mgica, de grande eficincia. Agora
aprendestes o caminho de casa. PRIMEIRO GUARDA - Ouvistes como fomos
censurados, por termos interceptado a passagem de Vossa Grandeza.
SEGUNDO GUARDA - Que razo imaginais que eu tenha para desmaiar?

76 

MENNIO - No me preocupo nem com o mundo nem com vosso general. Seres
como vs dois, nem chego a conceber que possam existir, to
insignificantes sois. Quem tem a possibilidade de morrer por suas
prprias mos, no tem medo de que os outros o matem. Que vosso general
pratique as piores barbaridades. Quanto a vs, continuai por muito tempo
sendo o que sois, e que com a idade aumente vossa misria. Digo- vos o
que me disseram: para trs!

(Sai.) 

PRIMEIRO GUARDA - Um nobre companheiro, posso asseverar. SEGUNDO GUARDA
- O companheiro mais digno  nosso general:  uma rocha, um carvalho,
que vento algum consegue abalar.

(Saem.) 

Cena III 

Tenda de Coriolano. Entram Coriolano, Aufdio e outros. 

CORIOLANO - Acamparemos amanh defronte das muralhas de Roma. Como scio
meu que sois nesta empresa, aos comandantes volscos relatareis minha
lisura em todo este negcio. AUFDIO - S cuidastes dos interesses
deles, e os ouvidos fechastes para as splicas romanas; no admitistes o
menor cochicho de ningum, nem ainda dos amigos que se prezavam de maior
prestgio. CORIOLANO - O ltimo, aquele velho que eu reenviei com o
corao partido para Roma, tinha por mim mais do que amor paterno. Sim,
chegava a endeusar- me. A vinda dele representa o ltimo recurso. Embora
me mostrasse com ele muito rspido, levando em conta nosso antigo afeto
de novo ofereci- lhes as primeiras condies, j por eles recusadas e
que, por isso, no sero aceitas. Fiz isso para prestigiar o amigo que
alcanar muito mais imaginava. Cedi, alguma coisa. Doravante, porm,
ouvidos no terei para outras embaixadas ou splicas, ou venham do
Estado, ou dos amigos, meus privados.

(Clamor fora.) 

Que clamor ser esse? Porventura querero obrigar- me a ser perjuro na
hora precisa em que formulo o voto? Tal no farei. 

(Com vestes de luto entram Verglia, Volmnia que conduz o jovem Mrcio,
Valria e criadas.) 

 frente, minha esposa; depois, a honrosa forma em que este tronco foi
plasmado, trazendo pela mo o neto de seu sangue. Fora, fora, compaixo!
Arrebentem- se os liames e os privilgios todos da natura. Ser
obstinado, agora,  ser virtuoso. Que significam essas reverncias,
esses olhos de pomba, que podiam deixar perjuros at aos prprios
deuses? Comovo- me. No sou feito de argila mais forte do que os outros.
At ao solo se curva minha me, como se o Olimpo diante de um monte de
toupeira viesse, 

77 

humilhado, abaixar- se; e meu filhinho feies de suplicante ora
apresenta, que a declarar obriga a natureza: "No recuses!" Que os
volscos arem Roma e o rastrilho por toda a Itlia passem. Nunca o papel
farei dos gansozinhos que ao instinto obedecem; mas como homem
resistirei, que houvesse de si mesmo sido gerado e que no conhecesse
nenhum parente. VERGLIA - Meu senhor e esposo! CORIOLANO - No vejo as
coisas como via em Roma. VERGLIA - A tristeza que tanto nos transforma
 que vos faz pensar dessa maneira. CORIOLANO - Tal como ator estpido,
esqueci- me do meu papel e fui vaiado e expulso.  tu, parte melhor de
minha carne, perdoa ao meu rigor, mas no me digas que aos romanos
perdoe. E agora um beijo to longo quanto meu exlio, doce como minha
vingana. Pela clera da rainha do cu, digo- te que este beijo eu tomei
de ti, minha querida, e desde ento a minha fiel boca virgem se
conservou. Oh deuses! Falo sem medida, e a mais nobre me do mundo deixo
sem saudao! Dobra- te, joelho, at ao cho e na terra imprime marcas
de tua reverncia mais profundas que as do filhos comuns. VOLMNIA - Oh,
no! Levanta- te e s bendito. Eu, sim, que em almofada mo mais mole
que a pedra, dobro os joelhos diante de ti e impropriamente mostro
reverncia, tal como se durante toda a vida enganado me tivesse com a
atitude dos pais para seus filhos. CORIOLANO - Como! Diante de mim vos
ajoelhais? Ento, que os seixos da marinha praia nos astros vo bater.
Ento, que os ventos amotinados lancem contra o ardente sol os cedros
altivos, o impossvel matando, com deixar trabalho fcil o que no pode
ser. VOLMNIA - s meu guerreiro; foste feito por mim. No reconheces
esta senhora aqui? CORIOLANO -  a nobre irm de Publcola; a lua ela 
de Roma, casta como o cristal feito da neve mais pura que do templo de
Diana estivesse a pender: cara Valria. VOLMNIA - Este  um pobre
resumo de vs prprio, que com o aperfeioamento do futuro talvez
consiga vos pegar em tudo. CORIOLANO - Que o deus dos combatentes, com a
anuncia de Jpiter supremo, de nobreza te inspire o pensamento, porque
possas mostrar- te invulnervel ao oprbrio e ficar nas batalhas como
grande baliza que resiste s tempestades e salva a quantos para ti
olharem. VOLMNIA- Pequeno, ajoelha- te. CORIOLANO -  o meu bravo
filho. VOLMNIA Sim, ele, vossa esposa - esta senhora - e eu prpria
somos vossos suplicantes. CORIOLANO - Por obsquio, calai- vos. Ou, no
caso de falardes, lembrai- vos de que nunca podeis considerar como
recusa de minha parte o que por

78 

juramento obrigado me vejo a recusar- vos. No mandeis que eu despea
meus soldados ou que a capitular de novo venha com os artesos de Roma.
No desejo que me mostreis o em que desnaturado pareo agora, nem que
minha clera e meu rancor tenteis tranqilizar com o frio raciocnio.
VOLMNIA - Oh! basta! basta! No nos concedeis nada, j o dissestes,
pois a pedir no temos outra coisa a no ser o que j nos recusastes.
Contudo, vamos formular a splica, pois se nos recusardes o pedido s em
vosso rigor recaia o oprbrio. Por isso, ouvi- nos. CORIOLANO - Tomai
nota, Aufdio; e vs, volscos, tambm; pois no queremos ouvir de Roma
coisa alguma  parte. Qual  o vosso pedido? VOLMNIA Se ficssemos
calados, sem dizer palavra alguma, nossas vestes e o estado destes
corpos mostrariam a vida que levamos depois de teu exlio. Considera
quanto mais infelizes do que todas as mulheres ns somos no momento de
procurar- te, pois a tua vista, que deveria, de prazer, os olhos
marejar- nos de lgrimas e aos saltos o corao deixar- nos, de
conforto, de pavor e tristeza fora aqueles a chorar e a este deixa
estremecido, com obrigar a esposa, a me e o filho a verem o marido, o
filho e o pai as entranhas rasgar da prpria ptria. A ns, coitadas,
muito mais que s outras  teu dio fatal, pois nos impede de aos deuses
dirigirmos nossas splicas, o que grande conforto  para todas, com
exceo de ns. Pois como fora possvel - ai de ns! - como nos fora
possvel implorar por nossa ptria - como  nosso dever - e, ao mesmo
tempo, pedir que possas alcanar vitria, como  nosso dever? Ah! 
preciso que percamos a ptria, a ama querida, ou ento tua pessoa, nosso
amparo e alegria na ptria. Inevitvel calamidade sobre ns se apresta,
seja qual for o voto que se exalce quanto  final vitria. Pois foroso
ser que, como um malfeitor estranho, passes em ferros pelas nossas
ruas, ou que pises triunfante nos escombros de tua ptria e a palma a
alcanar venhas por haveres o sangue derramado bravamente da esposa e de
teu filho. Porque, meu filho, protelar no hei de at que possa decidir
a sorte sobre o fim desta guerra. Se impossvel me  de todo fazer que,
enfim, te mostres com as duas partes nobre e generoso, em vez de a runa
de uma procurares, fica sabendo que no hs de os muros assaltar da
cidade - isso  certeza - sem passares primeiro sobre o ventre da me
que te deu vida. VERGLIA - E tambm sobre o meu, onde gerado foi teu
filho, porque teu nome nele perpetuasses. MENNIO - Sobre o meu corpo
ele no pisa, que hei de sair correndo, e quando ficar grande, volto
para brigar. CORIOLANO - Se no quisermos na alma ter de mulher a
semelhana, ver no devemos nem mulher nem criana. J esperei muito
tempo.

(Levanta- se.) 

VOLMNIA - Desse modo no nos deixeis. Se nossa interferncia a favor
dos romanos implicasse a destruio dos volscos, a servio dos quais
estais

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agora, podereis ver em ns o veneno de vossa honra. No; no h tal.
Queremos, to- somente, que a reconciliao faais entre eles, de forma
que dizer os volscos possam: "Mostramo- nos clementes", e os romanos:
"Com relao a ns", rompendo todos em calorosos vivas para tua pessoa
com dizerem: "S bendito por semelhante paz!" Meu grande filho, como bem
sabes, toda guerra  incerta. Mas uma coisa  certa: se chegares a
ganhar Roma, lucrars apenas um nome que h de ser por toda parte dito
com maldio e cuja crnica repetir: "Era pessoa nobre. mas com o
ltimo feito rebaixou- se: destruiu a ptria, havendo transmitido para a
posteridade um nome abjeto". Fala, meu filho. Sempre te esforaste por
ter os delicados traos da honra, por imitar dos imortais a graa, com
teus troves dilacerando as largas bochechas do ar, mais disparando um
raio capaz apenas de fender um roble. Por que no dizes nada? Acaso
pensas que seja honroso para um nobre sempre relembrar as injrias?
Falai, filha; ele no d valor ao vosso choro. Menino, fala tu,  bem
possvel que comov- lo possa mais que nossas razes tua inocncia. No
h filho que mais deva a sua me; no entanto, deixa- me falar agora sem
parar, tal como condenado no cepo. Em toda a vida nunca deste a tua me
prova de afeto. Ela - pobre ave! no se preocupava com segunda ninhada -
para as guerras com seu cacarejar sempre te enviava e, coberto de
glria, te fazia voltar so para casa. Dize apenas que meu pedido 
injusto e me repele. Mas, se tal no se der, faltas com a honra,
castigando- te os deuses por me haveres recusado a obedincia que me
toca por direito de me. Ele se vira! De joelho, damas! Possam humilh-
lo nossas genuflexes. O sobrenome Coriolano lhe infunde mais orgulho
que compaixo todas as nossas splicas. De joelhos; acabemos. Vai ser a
ltima tentativa. Voltemos para Roma e com nossos vizinhos pereamos.
No; olha para ns. Este menino que no sabe dizer o que pretende, mas
apenas se ajoelha e as mos levanta, traz razes mais potentes do que
possas aduzir em contrrio. Mas voltemos. Por me este homem teve mulher
volsca; a esposa est em Corolos; o filho s por acaso tem os traos
dele. Mas despachemo- nos; quero ficar quieta at nossa cidade ver em
chamas; depois ainda direi alguma coisa. CORIOLANO

(tomando Volmnia, que se cala, pela mo.) 

Me!  me! que fizestes? Oh! entreabrem- se os cus, e os deuses que
nos vem riem desta cena contrria  natureza.  minha me!  me! 
minha me! Ganhastes para Roma uma vitria muito feliz, mas para vosso
filho, podeis crer- me - oh! podeis - prevalecestes sobre ele por
maneira perigosa, se mortal no lhe for. Porm que venha. Aufdio, muito
embora eu j no possa dirigir guerra leal, ao menos posso concluir
honrosa paz. Bondoso Aufdio, se em meu lugar agora vos achsseis,
tereis, porventura, ouvido menos vossa me, caro Aufdio, ou concedido
menos do que pedisse? AUFDIO - Comovido fiquei, confesso. 

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CORIOLANO - Eu o asseveraria. E, amigo, podeis crer que pouca coisa dos
olhos no me faz pingar piedade. Meu bondoso senhor, aconselhai- me
sobre a paz que quereis fazer com eles. Por minha parte no irei a Roma;
retornarei convosco. Por obsquio, neste passo auxiliai- me. Oh me! oh
esposa! AUFDIO ( parte) - Muito me alegra ver que em tua alma lutam a
compaixo e a honra. Com isso tudo saberei refazer a antiga sorte. 

(As senhoras fazem sinal a Coriolano.) 

CORIOLANO - Neste momento. Mas bebamos juntos, e levareis a Roma um
testemunho melhor do que palavras, que haveremos de subscrever em
condies idnticas. Vamos, entremos juntos. Vs, senhoras, um templo
mereceis que vos construam; as espadas da Itlia, suas armas
confederadas, nunca chegariam a alcanar uma paz como a de agora.

(Saem.) 

Cena IV 

Roma. Uma praa pblica. Entram Mennio e Sicnio. 

MENNIO - Estais vendo aquela salincia do Capitlio, a pedra angular?
SICNIO - Estou; mas a que vem isso? MENNIO - Se conseguirdes abal- la
com o dedo mnimo, haver alguma esperana de que as damas de Roma,
principalmente a me dele, consigam alguma coisa. Mas, como disse, no
h esperana; estamos com as gargantas sentenciadas  espera somente da
execuo. SICNIO Ser possvel que um tempo to curto modifique a esse
ponto a natureza de uma pessoa? MENNIO - H muita diferena entre a
crislida e a borboleta; no entanto, a borboleta j foi crislida. De
homem, este Mrcio se transformou em drago; adquiriu asas;  algo mais
do que um ser que rasteja. SICNIO - Era muito afeioado  me. MENNIO
- Como a mim tambm o foi. Mas agora ele se recorda tanto de sua me
como de um cavalo de oito anos. A aspereza de seu rosto azeda uvas
maduras. Quando anda, move- se como uma mquina de guerra, rachando- se
o solo s suas passadas. S com o olhar  capaz de furar um arns; fala
como um dobre de finados e seu murmrio  uma bateria. Sentase em sua
cadeira como quem representa Alexandre. O que ele ordena que se faa,
fica feito s com a simples ordem. Para ser um deus s lhe falta a
eternidade e um cu para servir- lhe de trono. SICNIO - Oh! compaixo!
se o descreveis com fidelidade. MENNIO - Na descrio atenho- me ao seu
carter. Observai a graa que sua me alcanou junto dele. H piedade
nele como leite em um tigre macho,  o de que ter de certificar- se
nossa cidade. E tudo isso  trabalho vosso. 

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SICNIO - Que os deuses se compadeam de todos ns. MENNIO - No; num
caso destes eles no se compadecero de ns. Quando banimos Coriolano,
no fizemos conta dele; voltando Coriolano agora para cortar- nos o
pescoo, no faro conta de ns.

(Entra um mensageiro.) 

MENSAGEIRO - Senhor se amais a vida, recolhei- vos para casa. Os plebeus
se apoderaram de vosso companheiro de mandato, do- lhe empurres e
juram que se as damas romanas no trouxerem boas novas, ho de tirar-
lhe a vida aos pedacinhos.

(Entra outro mensageiro.) 

SICNIO- Que novidades h? SEGUNDO MENSAGEIRO - Boas notcias? Boas
notcias! boas! s matronas prevaleceram. J o acampamento os volscos
levantaram, Mrcio foi- se. Nunca viu Roma to alegre dia, nem mesmo
quando expulso foi Tarqunio. SICNIO - Amigo, tens certeza do que
dizes? No haver engano? SEGUNDO MENSAGEIRO - Tenho tanta certeza como
de que o sol  fogo. Por onde vos metestes, para terdes dvida sobre o
que houve? Nunca as guas da mar se comprimem com tanto mpeto debaixo
do arco, como os aliviados se atiram pelas portas da cidade. Mas Ouvi!

(Soam trombetas, obos e tambores em confuso; aclamaes dentro.) 

Sacabuxas, harpas, pfaros, trombetas, cmbalos, tambores, vivas dos
romanos  dana o sol arrastam. 

(Aclamaes dentro.) 

Estais ouvindo? MENNIO -  muito boa a nova. Vou ao encontro das
senhoras. Essa Volmnia vale uma cidade cheia de senadores, cnsules e
nobres; de tribunos assim, um mar repleto, toda a terra. Soubestes rezar
hoje. Esta manh eu no daria um bolo para comprar dez mil gargantas
vossas. Ouvi, quanta alegria!

(Aclamaes e msica.) 

SICNIO - Inicialmente, abenoem- vos os deuses pelas novas; depois vos
dou meus agradecimentos. SEGUNDO MENSAGEIRO - Motivos todos ns temos
bastantes para agradecimentos sublimados. SICNIO - J se esto da
cidade aproximando? SEGUNDO MENSAGEIRO - J no ponto de entrar. SICNIO
- Saiamos todos a encontr- los e o jbilo aumentemos.

(Retiram- se.) (Atravessam o palco as damas acompanhadas dos senadores,
patrcios e povo.) 

PRIMEIRO SENADOR - Vede a vida de Roma, a protetora de todos ns! Reuni
todas as tribos; orai aos deuses e acendei fogueiras de regozijo;
atapetai de flores o caminho por onde elas passarem. Com novos vivas 

82 

abafei os gritos que de Roma expulsaram Caio Mrcio. Nas saudaes da
me chamai- o  ptria. Gritai todos: Senhoras, sois bem- vindas! TODOS
- Senhoras, sois bem- vindas! 

(Fanfarras e tambores. Saem todos.) 

Cena V 

Corolos. Uma praa pblica. Entra Tulo Aufdio com criados. 

AUFDIO - Anunciai aos senhores da cidade que eu j cheguei e dai- lhes
este escrito. Depois de o terem lido convocai- os para o mercado, onde,
no ouvido deles e nos do povo provarei tudo isso. Quem eu acuso j
transps as portas da cidade e pretende apresentar- se ante o povo,
esperando com palavra justificar- se. Muita pressa em tudo. 

(Saem os criados.) (Entram trs ou quatro conspiradores do partido de
Aufdio.)

Sede bem- vindos. PRIMEIRO CONSPIRADOR - Como vai passando o nosso
general? AUFDIO - Como pessoa envenenada pela prpria esmola e que a
bondade mata. SEGUNDO CONSPIRADOR - Muito nobre senhor, se persistirdes
no projeto para o qual desejastes nosso auxlio, ns nos incumbiremos de
livrar- vos dessa grande coao. AUFDIO - Nada vos posso dizer, senhor;
teremos de portar- nos conforme virmos que se mostra o povo. TERCEIRO
CONSPIRADOR - O povo ficar sempre indeciso, enquanto entre vs dois
houver discrdia. A queda de um far de tudo herdeiro o que sobreviver.
AUFDIO -  muito certo. Os motivos que tenho de atac- lo so mais do
que plausveis. Elevei- o e por sua lealdade empenhei a honra. Mas ele,
uma vez no alto, as novas plantas irrigou com o orvalho da lisonja,
seduziu meus amigos, violentando para esse fim sua prpria natureza,
conhecida at ento como indomvel, independente e brusca. TERCEIRO
CONSPIRADOR - Sua empfia, senhor, quando ele obteve o consulado, que a
perder veio por no ter sabido tergiversar em tempo... AUFDIO - Ia
falar- vos a esse respeito. Tendo sido expulso por isso mesmo, veio a
minha casa e o pescoo estendeu  minha faca. Acolhi- o; fiz dele meu
conscio, dei- lhe azo a que os desejos expandisse. Fiz mais: deixei que
ele escolhesse dentre meus prprios contingentes os melhores e mais
dispostos homens, porque a cabo levasse seus projetos. Em pessoa servi
aos seus desgnios, ajudando- o a madurar a fama que na ceifa para ele,
s, ficou, tendo ele orgulho revelado em fazer- me essa injustia. Em
remate, chegamos a tal ponto, que mais seu subalterno eu parecia do que
mesmo

83 

parceiro, tendo- me ele recompensado com seus ademanes como se
mercenrio dele eu fosse. PRIMEIRO CONSPIRADOR - Justamente, senhor; e
muito espanto causou isso no exrcito. Por ltimo, quando Roma j
tnhamos vencido e f todos fazamos no esplio, como na glria...
AUFDIO -  a que bate o ponto, contra ele tenso meus tendes deixando.
Por algumas gotinhas de catarro de umas senhoras, que so to baratas
quanto mentiras, o trabalho e o sangue vendeu ele de nosso esforo
ingente. Por isso morrer deve; sua queda me far levantar. Mas,
escutemos!

(Barulho de trombetas e de tambores, de mistura com aclamaes do povo.)


PRIMEIRO CONSPIRADOR - Como se fsseis um correio entrastes na cidade
natal, sem que boas- vindas tivsseis de ningum; mas ele volta rasgando
o ar com o barulho. SEGUNDO CONSPIRADOR - Esses pacficos todos a quem
ele privou dos filhos, rasgam as goelas vis no louvor deles. TERCEIRO
CONSPIRADOR - Para vossa vantagem, desse modo, antes que ele se expanda
e possa o povo comover com discursos, vossa espada dai- lhe a provar,
que vos secundaremos. Jogando ele por terra, sua histria contada a
vosso jeito, juntamente com o corpo enterrar seus argumentos. AUFDIO -
Nem mais uma palavra; eis os senhores. 

(Entram os nobres da cidade.) 

NOBRES - Sois entre ns bem- vindo. AUFDIO - No mereo semelhante
acolhida. Mas senhores, lestes atentamente meu escrito? NOBRES - Lemos,
sim. PRIMEIRO NOBRE - E ficamos contristados. Suas primeiras faltas,  o
que penso, podiam ser sanadas facilmente. Mas terminar onde primeiro
estava, abrir mo das vantagens do armamento,  nossa prpria custa
indenizarnos, onde houve rendio firmar tratados, desculpas no admite.
AUFDIO - Ei- lo que chega; vs prprios o ouvireis.

(Entra Coriolano com tambores e bandeiras; grande nmero de cidados o
segue.)

CORIOLANO - Salve, senhores! Como vosso soldado aqui retorno, sem que do
amor da ptria ora me encontre mais infectado do que no momento em que
parti daqui, mas o supremo comando vosso obediente sempre. Passo a
dizer- vos que com muita sorte fiz esse ataque, tendo por caminhos
sanguinosos levado vossas guerras at s portas de Roma. O que trouxemos
como esplio ultrapassa pelo menos de um tero das despesas da campanha.
Conclumos uma paz to digna para vs antates como vergonhosa para os
romanos. Eis que vos transmito, pelos patrcios assinado e os cnsules,
juntamente com o selo do senado, o acordo que firmamos com os romanos. 

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AUFDIO - Nobres senhores, no leiais o escrito, mas dizei ao traidor
que em grau muito alto ele abusou de vossa autoridade. CORIOLANO -
Traidor! Como? AUFDIO - Traidor, Mrcio. Isso mesmo. CORIOLANO -
Mrcio? AUFDIO - Sim, Mrcio: Caio Mrcio. Pensas, acaso, que enfeitar-
te vou com o nome roubado, Coriolano, e isso em Corolos? Senhores e
cabeas da repblica, ele traiu os vossos interesses perfidamente, e por
algumas gotas salgadas entregou vossa cidade, Roma - sim, digo: vossa! -
 me e  esposa, rompendo os juramentos e os propsitos como um lao de
fita apodrecida. Nunca ouviu um conselho de campanha, mas da me ante as
lgrimas ps fora, choramingando e urrando, vossos louros, o que os
pajens deixou enrubescidos e os homens de valor fez entreolharem- se,
tomados de estupor. CORIOLANO - Ouviste, Marte? AUFDIO - No invoques o
deus, choro menino. CORIOLANO - Ah! AUFDIO - No prossigas. CORIOLANO
- Mentiroso imenso, grande demais o corao deixaste- me, para caber no
peito. Qu! "Menino?" Miservel... Perdoai- me, meus senhores;  a vez
primeira que a insultar me foram. Vosso juzo, ponderados nobres, vai
dar o desmentido a este cachorro; e sua prpria conscincia - que as
estrias de meus golpes ainda tem presentes, marcas que h de levar ao
prprio tmulo - h de vos secundar no desmentido. PRIMEIRO NOBRE -
Ficai quietos e deixai que eu fale. CORIOLANO - Cortai- me em
pedacinhos, volscos! Homens e moos, vinde em mim manchar os gldios.
"Menino!" Co hipcrita! Se houvsseis vossos anais escrito com verdade,
l podereis ler que tal como guia num pombal pus em fuga os vossos
volscos, em Corolos. Eu, eu s! "Menino!" AUFDIO - Como! nobres
senhores, quereis mesmo que as faanhas da sorte dele cega - vosso
oprbrio - vos sejam relembradas por este fanfarro desnaturado, ante
vossos ouvidos, vossos olhos? CONSPIRADORES - Que ele morra por isso.
TODOS OS CIDADOS - Espedaai- o, j j! - Matou meu filho! - Minha
filha!- Matou meu pai! - Matou meu primo Marco! SEGUNDO NOBRE - Silncio
a! Nada de insultos. Calma!  um homem nobre e sua fama ocupa o orbe
todo da terra. A ltima ofensa que nos fez h de ser regularmente em
juzo discutida. Pra, Aufdio; no perturbes a paz. CORIOLANO - Ah! se
o tivesse com seis outros Aufdios e sua tribo ao alcance de minha leal
espada! AUFDIO - Celerado insolente! 

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CONSPIRADORES - Morte! Morte para ele! Morte! Morte! 

(Aufdio e os conspiradores sacam da espada e matam Coriolano, que cai.
Aufdio pe o p sobre o cadver.) 

NOBRES - No! Parai! Parai! Parai! Parai! AUFDIO - Meus nobres mestres,
deixai que vos explique o que houve. PRIMEIRO NOBRE - Oh Tulo! SEGUNDO
NOBRE - Chora a coragem ante o que fizeste. TERCEIRO NOBRE - No o
piseis. Senhores, acalmai- vos! Guardai vossas espadas. AUFDIO - Meus
senhores, quando a saber chegardes - o que neste grande furor, por ele
suscitado, possvel no ser - todo o perigo com que nos ameaava a vida
dele, ficareis satisfeitos por ter sido morto ele deste modo. Vossas
Honras podem chamar- me  frente do Senado, que hei de provar que sou
vosso fiel servo, ou submeter- me a vosso grave juzo. PRIMEIRO NOBRE -
Levai daqui o corpo. E pranteai- o. Ser tido na conta do mais nobre
cadver que j foi acompanhado pelo arauto at  urna funerria. SEGUNDO
NOBRE - Seu arrebatamento justifica por uma boa parte o erro de Aufdio.
Tiremos disso todas as vantagens. AUFDIO - Minha fria passou. Sinto-
me agora tomado de tristeza. Levantaio. Ajudai trs guerreiros, dos
melhores; serei o quarto. Bate em teu tambor, de forma que ele fale
tristemente. Abaixai vossas lanas. Muito embora tenhamos ainda na
cidade muitas mulheres que sem filhos, sem maridos ele deixou e que
ainda se ressentem de seus golpes at este momento, h de alcanar mui
nobre monumento. Carreguemos.

(Saem levando o corpo de Coriolano, ao som de uma marcha fnebre.) 

*************** 
